Capítulo 4

- Admita Sarah, não consegue ser sedutora! – disse eu risonho.
Era a época mais feliz de minha vida. Estávamos lá, como fazíamos todas as tardes que podíamos, eu e Sarah, escondidos atrás de um grande arbusto de pequenas folhas muito verdes. Ficávamos segredando conversas sobre todos tipos de assunto enquanto as folhas nos acobertavam de olhares e ouvidos repressores. Eu em meus 15 anos tinha agora um nariz anormalmente grande. Ela acabara de completar 14 e estava inconformada com as palavras que eu acabara de dizer, era sempre assim, espontânea demais comigo, era minha melhor amiga e eu o dela, pelo menos era o que ela dizia, ela era mais amiga que Charlie e Thomas, com quem sempre conversei, ela era mais.
Quando completamos nosso primeiro mês naquela casa, já tínhamos certeza que a criança de Bianca era uma garota. Thomas, Charlie e eu então fizemos de tudo para conhecê-la e alguns meses depois o padre Fixar tinha decidido que ela viveria como uma criança normal e que era injusto mantê-la prisioneira de seu próprio quarto, é claro, nós demos uma pequena ajuda para esse pensamento, embora a Senhora Coppais fosse sempre irredutível e não concordasse, ela acabou cedendo que Sarah conhecesse seus inquilinos e vice-versa.
A primeira vez que ela foi apresentada à nós estávamos sentados no chão da sala e o padre explicava a nós a situação, disse que ia nos apresentar a verdadeira dona da casa e que confiaria em nós para nos comportássemos da melhor maneira possível. Foi até bem rápido, a senhora Coppais à trouxe, uma menininha linda de rosto redondo, cabelos negros e olhos claros, todos à cumprimentaram e ela nos cumprimentou. Adoráveis minutos em que eu a vi de perto pela primeira vez, ela nem tinha me notado, eu estava sentado no meio dos garotos, realmente não chamava muita atenção. Mas ela notou Charlie, acho que ele chegou atrasado com esse propósito, tinha ido buscar Alfie no estábulo, mas havia demorado mais do que o convencional, ela estava quase indo embora quando ele surgiu pela porta fazendo barulho. Charlie parecia sempre pensar em tudo, ou ao menos eu pensava que ele planejava tudo, sempre no lugar certo, na hora certa, ele sabia chamar atenção sem parecer querer isso. Eu o invejava, lutava contra isso, mas sim, eu o invejava.
Comecei a tomar mais contato com Sarah quando a Sra. Coppais ficou doente. Nessa época ela já confiava em mim o suficiente. Ela se mudou pro quarto de Sarah, mas não podia cuidar dela, então me mandava levar e trazer refeições e o que mais fosse preciso. Confiava mais em mim do que no próprio Alfie, mas o único em que confiava inteiramente era o padre Fixar. Mas ela se arranjava com minha ajuda já que o padre tinha muitas coisas a fazer além de nos visitar.
Fiquei um pouco mais de uma semana levando e buscando bandejas, das vezes que a Sra. Coppais adormecia nós conversávamos, normalmente ela começava os diálogos, meu nome, como estava o dia lá fora, relatos dos meninos, como eram, como se chamavam. As vezes ela escrevia num livro, eu não sabia ler, muito menos escrever, essa foi uma das coisas que mais me encantou nela. Uma vez o padre tentou ensinar-nos a escrever, ia duas vezes por semana até a antiga casa de Alfie e lá nos ensinava, ou tentava, acabou desistindo por falta de interesse da nossa parte. Thomas e mais um garoto eram os únicos que davam atenção as aulas, eu e Charlie achávamos perda de tempo, embora na época não fossemos amigos. O resultado era que Thomas era o único de nós que sabia ler e escrever, às vezes o padre o trazia algo para ele praticar, normalmente passagens religiosas, algumas ele mesmo escrevia já que as passagens eram em latim e já era suficientemente difícil ler, ler em outra língua era demais para qualquer um de nós. Soube eu que ele também levava passagens para Sarah, o latim dela era razoavelmente bom. Eu me arrependi muito de não ter dado importância à aquilo quando vi Sarah escrevendo, ela me contou que tinha sido o padre que a tinha ensinado e que ela estava escrevendo relatos da sua história, mas eu não poderia ver, ninguém podia além dela. A senhora Coppais não sabia, embora se soubesse não faria muita diferença, pelo que Sarah tinha dito ela também não sabia ler.
Quando a senhora Coppais melhorou, eu bem queria que não tivesse melhorado, eu passei a não ver Sarah novamente. Foi quando ela começou a usar sua persuasão, implorava para o padre que a liberasse para conviver conosco uma vez por semana, o padre sempre foi muito gentil e não resistia aos pedidos de uma garotinha prisioneira por isso acabou liberando, mas teria que estar sempre acompanhada. Mesmo com esse ultimo item a senhora Coppais estava inconformada e quando Sarah saia do quarto o tempo fechava para a Sra. Coppais, tudo era motivo de reclamações e castigos.
Com o tempo Sarah passou a sair duas ou três vezes por semana, algumas andava a cavalo, era um dos seus passatempos preferidos, outras vezes se juntava a nós para ouvir histórias de Alfie, mas as melhores histórias ela perdia, pois com a Sra. Coppais por perto Alfie não se arriscava a contar histórias encantadas. Sarah só conversava conosco quando os ouvidos da Sra. Coppais estava razoavelmente longe ou quando ela estava aos cuidados do padre Fixar, às vezes ela sumia da vista dos dois e quando a Sra. Coppais notava ela ficava mais de uma semana sem nos ver. Até o padre convencê-la a liberar Sarah novamente. Sarah queria cada vez mais liberdade, não sabia como era privilegiada por ter um pouco dela.
Sarah nunca se conformava, tinha um espírito aventureiro como poucos, as histórias de Alfie as inspiravam muitas vezes, as histórias de aventura eram as suas preferidas, principalmente quando envolviam algum romance, romances proibidos, ela os adorava. A Sra. Coppais, por sua vez, as detestava, às vezes interrompia a história ou levava Sarah pro quarto quando começava uma parte que a desagradava, ela e Alfie não se davam muito bem, embora convivessem sem maiores problemas, o padre era quem realmente mandava naquela casa, diga-se de passagem, na aldeia também, intermediando as discussões e chegando a um acordo.
Conforme a liberdade de Sarah foi crescendo ela foi tornando-se minha melhor amiga, afinal eu era o preferido da Senhora Coppais, sempre prestativo e educado, interesseiro também, não nego, fazia isso sempre para poder ficar o mais perto possível de Sarah e após conquistar a confiança da velha Coppais, eu era a melhor pessoa que ela indicaria para ser amigo de Sarah, e mesmo assim ela estava sempre atenta a nós.
- Eu sei ser sedutora quando quero!
Ela era sedutora mesmo sem perceber, a verdade era que Sarah já tinha me conquistado há muito tempo, e não só por ser uma garota, como a menina da aldeia de anos atrás, eu estava completamente apaixonado! Por anos e anos, por dias e dias, e em todas horas, parecia que eu não pensava em mais nada. E ao mesmo tempo em que comigo ela era tão natural eu sempre era receoso quando estava com ela, embora não demonstrasse. Tinha me tornado a melhor pessoa para esconder sentimentos. Agora não me faz sentido porque eu os escondia dela, mas acho que eu tinha medo de contar o quanto ela me era importante. Eu procurava irritá-la e desprezá-la às vezes e ela me retribuía da mesma forma o que para mim era terrível, no entanto nem eu nem ela conseguíamos ficar zangados um com outro por mais de umas horas. Eu já tinha me acostumado com sua voz zombeira e sempre inconformada, com aqueles grandes, doces e penetrantes olhos azuis, a pele branca como inverno e quente como verão e seus sedosos cabelos negros, o jeito sempre em metamorfose, mas sempre aquele mesmo jeito pelo qual eu me apaixonara e do qual não me imaginara sem.
- E como sabe, eim? Já seduziu alguém? – respondi.
Eu realmente esperava que não, embora soubesse que era inevitável que outros se apaixonarem por ela, embora eles não fossem amá-la tanto quanto eu a amava, isso era impossível. Eu tinha medo que ela chegasse perto de mais algum garoto, até mesmo Charlie e Thomas, principalmente Charlie. E é claro que ela tinha me seduzido, mas eu não a deixaria descobrir, não era confiante em mim o suficiente, mesmo que perto dela eu bancasse o superior.
- Não deve ser difícil, ser uma mulher já é meio caminho andado. – disse-me com aquele sorrisinho irônico. O sol quer penetrava entre as folhas do arbusto que nos escondia iluminava seu rosto, eu não cansava de admirá-lo, mas tinha que continuar com nossa pequena encenação para nós mesmos.
- Mulher? É apenas uma garotinha! – Zombei tentando desafiá-la, dizendo sem palavras, “Mostre-me que é mulher!”.
- Há! – riu-se tentando demonstrar que eu-não-sabia-de-nada, mas eu percebi que ela não estava segura de si também, era um teste, ela sabia, eu a estava testando e ela ia me testar também.
- Nem mesmo parece uma garotinha, - provoquei - age mais como um menino! É pior que Charlie e Tho...
- Cala-te! – ordenou-me com uma autoridade que me surpreendeu, mas de um jeito doce, quase um pedido, ela me encarava. – Cala-te... E dê-me um beijo.
E uma corrente de pensamentos irrompeu numa corrente incoerente. Fora mais rápido do que eu pensara, não estava preparado. Parei. Gelei. E o meu coração disparou. Havia um frio no meu estômago. De meu corpo subiam labaredas de calor que me dominavam, acho que corei. Meus pensamentos ficaram ausentes.
- Quer mesmo um beijo? – E com isso eu dizia, QUEIRA um beijo!
- Dar-me-ai um beijo? – Ela agora estava falando daquele modo cortes e complicado típico dos nobres que a ensinavam e que eu ainda não entendia bem, mas me encarava e sua boca não tinha se fechado totalmente, ela queria um beijo!
- Dar-te-ia tudo que me pedisse. – Arrisquei, me pareceu bom, mas minha voz tinha um ar de imploração, Peça-me um beijo!
- Deu-me então, tudo que eu sempre quis. – O que? Eu não tinha entendido, era confuso! Confuso! Completamente confuso, então eu interpretei da maneira que conseguia, da maneira que eu conseguia raciocinar, eu nem mesmo conseguia raciocinar! Da maneira que melhor me convinha. Eu a beijei.
Fechei meus olhos e deixei meus lábios encontrarem os dela, e só pensei naquilo, e um turbilhão de emoções me vieram e eu me concentrava só naquele beijo, naquela pressão sobre meus lábios, o resto eu não me importava, o resto, não existia. Uma onda gelada atravessava meu estômago devagar. Permaneci ali até que o fôlego me faltou, eu até mesmo me esqueci de respirar. Não tinha durado nem 1 minuto, mas foi o 1 minuto mais longo da minha vida. Afastei-me, ainda com os olhos fechados e ofegando devagar, com o coração explodindo em minha boca, eu sentia minhas pulsações por todo corpo, eu ouvia minha respiração em sincronia com a de Sarah, eu sentia o calor dela. Ela era mulher do jeito que eu nunca imaginara uma mulher, era mais do que eu jamais imaginara.
E quando abri os olhos ela ainda estava lá, de olhos fechados, de joelhos na grama a poucos centímetros de mim, com o rosto sereno e feliz, uma brisa balançava seus cabelos, eu queria beijá-la novamente. Tinha que beijá-la novamente. Ia fazer exatamente isso quando aqueles olhos azuis me encararam novamente, doces e ingênuos. Eu não soube o que fazer, eu não conseguia pensar. E em um instante o rosto sereno em ingênuo ganhou uma aparência zombeira, era a Sarah minha amiga de volta e ela me disse: Eu disse que sabia ser sedutora!

21 comentários:

Inez disse...

Você escreve muito bem, sua estória tem uma sequência lógica, tudo muito bem colocado, só acho que seus textos são longos.

Cláudio Luiz Almeida disse...

Torço para que sai em livro logo. Boa sorte.

nayh disse...

Parabéns ...

vc Escreve super bem & achei seu blog bem interessante tbm!

Michael Levesque disse...

Vou rebobinar pra acompanhar essa história...

Silvio disse...

Parabéns pelo excelente parte!

Gostei muito da história, sem contar toda história da Sarah, bem bacana, gostei!

Já podem escrever um livro!

Abraços.

Mattheus Rocha disse...

Vai virar livro? É uma boa.

Calvin disse...

Só sei que boa parte da minha vida esquecer o passado seria uma ótima coisa a se acontecer com minha pessoa.rsrs



Calvin Watterson www.finalzindefesta.blogspot.com

biah disse...

Adorei esse capítulo, principalmente a descrição do beijo e todos os sentimentos dele em relação a ela, sem contar que a história também é bastante interessante. Porque não publica esta história?

Diogo C. Scooby disse...

Ah muito bom, adorei!! Comecei a primeira parte, vou continuar e quando alcançar aqui comento de novo.

Bem que podia ter algumas ilustrações no post, visualmente é interessante pro blog.

Abraço!

Sistema monetario disse...

comprarei o livro

Daniel Silva disse...

muito interessante a tua proposta! deveria virar livro.

abraço

Roqueira! (: disse...

nossa, li apenas o quarto capítulo e já curti, voltarei pra ler desde o início.

Bruno A. disse...

vocee escreve super bem !
mal posso esperar uma nova terça pra ler um novo capítulo *-*
Parabeéns !

Visita lá o meu blog tbm: www.gagauhlala.blogspot.com

Keizy Barreiro disse...

Até que vc é uma boa escolha para participar do O Escolhido da semana...
Vc sabe escrever bem ...
Faça um livro...que tal?rsrs

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Não há critérios para ser escolhido.
A escolha é aleatória, quem for se destacando, vai ter a oportunidade de ganhar um espaço aqui para poder se mostrar, e falar um pouco de sua vida e até mesmo divulgar seus trabalhos e tudo mais.

Bjãooo

Des-falando disse...

adorei o texto, merece um livro !
Já to seguindo pra acompanhar a história mais vezes !
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http://des-falando.blogspot.com/ - dá uma passada no nosso blog !

Fernanda disse...

aah! perfeito!
vou ler os anteriores.

Tunico disse...

O final do Capítulo foi muito interessante...
Quero saber como continua...

BLOG disse...

Vai ser um dos melhores llivros q eu vou ler XD

Felipe Girardi disse...

Acho interessante ressaltar um ponto: Esther não tem a pretensão de sustentar apenas um blog, como alguns dos comentários fazem menção, fazendo elogios a esta página. Isso que estamos tendo o prazer de ler é uma obra literária quase acabada. Não me refiro aos capítulos, sei que ainda está no V, mas a qualidade do texto, que precisa apenas de algumas pequenas correções gramaticais. Em si, é um texto compreensível e bem articulado, o que não significa necessariamente dizer que é uma leitura fácil, pois, em determinadas situações, as emoções do eu-lírico e as do leitor se confundem. Dá-nos vontade de dizer, "não Charlie, não faça isso!", queremos estar ali naquele momento. Acho que isso define bem o que quer se dizer quando se classifica um texto como "envolvente". Parabéns Esther, fico muito feliz com o teu trabalho, está no caminho certo.

joão victor borges disse...

Esther, eu indiquei seu blog O Menino Que Esquecia o Passado ao selo Beautiful Blogger recentemente.
Se quiser tê-lo estampado no seu blog é só entrar no meu, http://anpulheta.blogspot.com, e pegá-lo.
Pra pegar é só salvar o selo no seu computador e colocar no template do seu blog como preferir,
e fazer mais 7 indicações a blogs que você julga merecedores. :D

ps: talvez você não queira colocar pelo fato de o blog ser bem mais em estilo de livro mesmo,
mas não podia deixar de te indicar. a propósito, tentei mandar isso por orkut, mas ele reconhece como spam e não envia, então foi por aqui mesmo. um beijo ;)

Cabral disse...

Não sou muito de leitura, ainda mais pra esse tipo de texto. Mas está de parabéns, ecreve super bem...Sucesso!