Capítulo 5 (Parte 2)

Estávamos extasiados com sorrisos bobos enquanto montávamos Lança e Andarilho naquela noite. Escapamos com facilidade do quarto que dividíamos com mais 7 garotos e então eu e Charlie subimos novamente no telhado e sorrateiros levantamos as toras que soltamos de manhã e puxamos Sarah para fora. À noite nós tínhamos que tomar muito mais cuidado, eu desci primeiro pela escada e logo depois de mim veio Sarah, estava insegura, mas era corajosa.
Encontramos Thomas que tinha selado os cavalos enquanto efetuávamos o resgate. Dividimos-nos, eu e Sarah fomos em Andarilho e é claro eu fui na garupa, não tive coragem de apoiar minhas mãos em sua cintura para me equilibrar melhor, acabei segurando na sela. Charlie foi conduzindo o outro cavalo, na garupa Thomas também segurava a sela.
A noite estava belamente estrelada e fria. Partimos guiados por Sarah que nos levou por uma trilha na floresta até o rio num passo manso para não nos perdermos. Lá respiramos o ar fresco da floresta enquanto ouvíamos a melodia da noite, o som do rio ao nosso lado, o balançar das folhas com a brisa, o barulho dos cavalos respirando e os animais da floresta. Seguimos pela margem conversando sobre assuntos tolos e divertidos às vezes ficando quietos só para apreciar a noite. Eu sentia o cheiro dos cabelos de Sarah a minha frente, tinham um perfume doce, não sei se ela tinha se perfumado para o passeio, mas não achei improvável, ela era muito vaidosa, a Sra. Coppais lhe ensinara isso.
- Vocês gostam de sangue? – Ela nos perguntou descontraída certa hora e eu pude notar pela sua voz que sorria alegremente, mas não entendi a pergunta.
- Como assim sangue? – Perguntou Thomas também não entendendo.
- Vocês sabem... Quando se cortam sai sangue, não é? Vocês já devem ter provado. Gostam do sabor?
Eu não gostava muito, tinha certo gosto de ferrugem e era meio enjoativo de se lamber por muito tempo. Mas Sarah parecia gostar, ficamos discutindo isso por um tempo. Charlie lhe disse em tom de brincadeira que ela era meio doida por gostar disso, foi então que se Sarah calou, senti que ela não tinha gostado. Quis voltar.
- Ora vamos, Sarah. Não temos nem meia hora de passeio e você já quer dar no pé só por essa bobagem? – reclamou Thomas.
- Concorda com ele, Ivã? – Disse ela virando na cavalo para me encarar.
Por que raios ela me perguntou isso até hoje não faço idéia. Eu não sabia que lado tomar. Por que me envolver naquilo? Eu não queria ir embora, então respondi da melhor forma que encontrei que concordava com Thomas. Não foi uma boa idéia.
- SE VOCÊ QUER FICAR, ENTÃO DESÇA DO MEU CAVALO! PORQUE EU VOU EMBORA! – gritou irada e senti que ela começaria a chorar.
- Não Sarah, não é isso, eu...
- DESCE DO MEU CAVALO, AGORA!!! – a voz dela tinha alcançado um timbre agudo e assustador. Eu desci e ela virou o cavalo e o pôs pra galopar.
- SEU IMBECIL! – gritou Charlie para mim – POR QUE A DEIXOU IR? Thomas desça!
Thomas pulou do cavalo e Charlie disparou atrás de Sarah. Lança era mais rápido que Andarilho, eu sabia que ele a iria alcançar. Mesmo assim torcia para que não conseguisse. Imbecil? Ele não podia me chamar assim! O imbecil tinha sido ele! Ele a chamou de doida! Bem, agora eu concordava com ele. Afinal, o que tinha dado nela? No fundo eu sabia que a culpa não era nem minha nem de Charlie e também não era de Thomas. Ficamos nós dois parados ouvindo o som dos cascos na terra fofa diminuindo. Thomas começou a caminhar calmamente na direção em que seguiram os cavalos. Eu fiz o mesmo olhando para o chão.
- Essa menina está mesmo meio doida. – disse ele – A pressão deve estar acabando com ela.
- Como assim?
- Ah, você sabe. A Senhora Coppais e o padre Fixar escolheram essa tarde um noivo pra ela.
Eu tinha me esquecido. Eu tinha sido mesmo um imbecil. Não era hora de contrariá-la. Ela devia estar se sentindo péssima. Comecei a olhar para a escuridão à nossa frente tentando enxergar algo adiante, o som dos cascos já tinha sumido, agora só restava o som de nossos próprios passos.
- Você sabe quem eles escolheram? – Thomas me perguntou.
- Faz diferença? Com certeza não foi nenhum de nós.
Thomas riu, ele sabia que era verdade.
- Bem, eu sei quem é. – disse – Lembra há uns anos quando estávamos nos mudando pra cá? Naquelas carroças?
- Lembro. – respondi agora curioso, o que isso tinha haver com o casamento de Sarah.
- Ótimo. Bem, lembra que paramos em frente a um casarão onde morava um tal Duque que ficou preocupado com a nossa vinda pra cá?
Eu ri, eu lembrava sim.
- Foi aquele que nos fez pensar que a Sarah era uma espécie de menino esquisito?
- Esse mesmo. Lembra dos filhos dele? O mais velho é o aspirante a noivo da Sarah.
Fiquei quieto, eu lembrava, era pomposo como o pai. Com ar de superior, o rosto eu não lembrava muito, mas era bem mais velho que nós na época. Devia ser uns 10 anos mais velho que Sarah. Pra mim era uma diferença muito grande.

Depois de mais um tempo caminhando ouvimos cascos se aproximando lentamente. Charlie e Sarah estavam voltando. Esperamos eles chegarem perto.
- Vamos continuar nosso passeio rapazes. – disse-nos Charlie.
Voltamos calados para nossas garupas. Os cavalos voltaram a andar num ritmo manso e nós continuamos calados até que resolvi falar com Sarah e me aproximei para sussurrar ao seu ouvido.
- Me desculpe. – eu disse baixinho, sabia que não era minha culpa, mas faria de tudo por ela, não me importava quem era o culpado.
Ela suspirou longamente e virou o rosto para me beijar a bochecha.
- A culpa foi minha. – ela me sussurrou em resposta e eu sorri.

Continuamos a cavalgar em passos lentos pela margem do rio. Em meio a escuridão ninguém podia ver, mas eu ainda sorria, abobalhado e feliz. Afinal, o meu estrago não tinha sido tão grande assim. Parei de sorrir quando me lembrei do que tanto afligia Sarah, isso também me atormentaria durante um bom tempo.
Quando vimos que o passeio não ia prosperar muito resolvemos voltar. Charlie perguntou se Thomas queria conduzir o cavalo e eles trocaram de lugar.
- Quer ficar no comando? – perguntou-me Sarah melancólica.
- Não se importa de ficar na garupa?
- Não.
Eu achei que ela estava me testando, mas não estava. Ela desceu do cavalo e eu pulei do lombo para a sela e a ajudei a subir. Suas delicadas mãos seguraram minha cintura quando ela se ajeitou atrás da sela.
- Podemos correr? – perguntou abestalhadamente o sempre alegre Thomas e Charlie concordou. Também me pareceu uma boa idéia.
- Você se importa? – disse eu à Sarah.
- Não, seria divertido. – ela ainda estava melancólica, mas pareceu sorrir.
- Então vamos apostar uma corrida! – gritei para meus companheiros. – Três... Dois... Um... JÁ!!!
Saímos num galope desvairado que nos jogou com força para trás. Seus corpos subiam e desciam em incrível velocidade, era a primeira vez que os via correr assim. Eu soltara as rédeas e me agarrava à sela desesperado enquanto Sarah abraçava minha cintura com força para não ser lançada na escuridão. O vento soprava intensamente em direção a nossos rostos, ao nosso lado uma dupla animada gritava e ria energicamente e Sarah se juntou a eles. Senti às minhas costas o vibrar de seus risos e alegria, foi então uma gigantesca sensação de êxtase me envolveu num doping de pura felicidade. A vida não podia ser mais bela!
Os cavalos desgovernados corriam velozmente enquanto nós quatro ríamos alto em nossa sublime liberdade. Ríamos quando ficávamos para trás, mesmo com a zombaria da dupla que nos passava. Gargalhávamos quando nosso cavalo arranjava mais energia e ultrapassava nossos amigos. Rimos e gritamos quando eles erraram a curva e se embrenharam na floresta e nós fomos atrás. Não conseguíamos parar de rir nem quando os galhos das velhas árvores prendiam em nossos cabelos e nos arranhavam. A mata impedia que os cavalos continuassem galopando, mas não os impedimos que avançassem cada vez mais. Só parávamos de rir para ganhar fôlego e rir mais, era contagioso.
- Onde... Onde aqueles dois estão? – Sarah perguntou quando paramos e soltou minha cintura, ainda estava meio sem fôlego por tanto rir.
Respirei fundo e respondi com o fôlego faltando – Não sei... – puxei mais ar – Perdi eles de vista logo depois que entramos aqui... CHARLIEEE? ! ? THOMAAAS? ! ?
Agora que tínhamos parado de rir a floresta parecia assustadora, soturna e gelada. Sarah se juntou a mim e continuamos gritando seus nomes sem que eles nos respondessem. Isso era ainda mais apavorante. Sarah me segurou novamente fincando as unhas na minha cintura.
- Vamos voltar, por favor. – senti o medo na sua voz. Concordei e tentei manobrar Andarilho entre os galhos e árvores que nos cercavam.
- Acho melhor eu descer do cavalo e ir puxando. – disse.
- Não! – ela me pediu e fincou mais forte as unhas em mim – Por favor, fique aqui... Fique comigo...
Em poucos segundos eu vivera uma salada de emoções. Primeiro fiquei vaidoso, confiante e corajoso, por Sarah ter dito aquilo. Depois eu repetia incessantemente em minha mente o quanto a amava e que era maravilhoso estar à sós com ela, mesmo que suas mãos me machucassem a carne. Então me senti impotente e desorientado, para onde ir? Como tirar-nos dali? Por fim também senti medo, um medo terrível daquele lugar, medo provocado pela noite, por Sarah, pelo som dos animais que estavam ali e pelas malditas histórias de suspense que Alfie nos contava e que sempre, sem exceções, envolviam aquela sinistra floresta na qual nos encontrávamos.

12 comentários:

Henrique Alvez disse...

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que legal esse cap. Superou o 3 q até então era meu preferido...
Essa segunda parte em especial me agradou mais....Depois que o Charlie volta com a Sarah (o que ele fez pra trazê-la de volta? O__O) e eles saem correndo a cavalo foi o melhor momento da história até agora, simplismente mágica a maneira com que vc descreveu todo o turbilhão de emoções do Ivã....
Mas e agora? Os dois vão ficar sumidos e eles vão se ferrar muito sério com a Coppais?
Aguardando...

Daniel Silva disse...

gosto muito dos teus textos. esse foi o melhor que li até agora!

abrço

Guilherme Bayara disse...

Muito bom. Você prende o leitor.
També fiquei intrigado, como ele fez pata traze-la de volta?

Muito bom mesmo!

Laís Ferreira disse...

Muito bom, como disseram vc prende o leitor!
Parabéns!

Danilo Moreira disse...

Parabéns pelo texto! Me lembrou muito aquelas histórias juvenis da Serie Vaga-Lume da ed Atica.

Bjs!!!

BLOGUEIRO EXECUTIVO disse...

texto que continua sempre benquisto literalmente e linearmente, além disto, essa coisa de escrever um romance em watch live na blogosfera é ótimo e inovador... bem interessante e pioneiro de fato!

Leandro disse...

agora consegui comentar!
eu acho mto legal pessoa q escrevem bem como voce sabe?
novos talentos ainda nao descobertos..
abraços

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Andressa m disse...

Parabéns pelo blog, você escreve muito bem.

Fazia tempo que não encontrava um bom assim...

Vou acompanhar

. Yuri Barichivich disse...

Seus textos são realmente muitos bons. Eu vi uma "entrevista" com você em outro blog, me interessei e vim ler. Parabéns.

Dê uma passada no meu, temos os assuntos em comum, produzimos séries e contos tmb.
Se pudar, siga-me no twitter @Barichy :D

Verball
Siga-nos no @blogverball

/+/ Rafael /+/ disse...

Não sou muito de ler texto tão grandes, mas o seu até que foi bom :]

gambiarritos disse...

Muito bom , Textos grandes assim costumam assustar , mas quando comecei a ler a leitura é fluente e prende a gente. Uma sugestão seria Colocar titulos chamativos o quem sabe aliar seus textos a ilustrações marcantes.Parabéns

Juuh disse...

que legal, pretento ler os outros. tô seguindo ;*