Capítulo 5 (Parte 2)

Estávamos extasiados com sorrisos bobos enquanto montávamos Lança e Andarilho naquela noite. Escapamos com facilidade do quarto que dividíamos com mais 7 garotos e então eu e Charlie subimos novamente no telhado e sorrateiros levantamos as toras que soltamos de manhã e puxamos Sarah para fora. À noite nós tínhamos que tomar muito mais cuidado, eu desci primeiro pela escada e logo depois de mim veio Sarah, estava insegura, mas era corajosa.
Encontramos Thomas que tinha selado os cavalos enquanto efetuávamos o resgate. Dividimos-nos, eu e Sarah fomos em Andarilho e é claro eu fui na garupa, não tive coragem de apoiar minhas mãos em sua cintura para me equilibrar melhor, acabei segurando na sela. Charlie foi conduzindo o outro cavalo, na garupa Thomas também segurava a sela.
A noite estava belamente estrelada e fria. Partimos guiados por Sarah que nos levou por uma trilha na floresta até o rio num passo manso para não nos perdermos. Lá respiramos o ar fresco da floresta enquanto ouvíamos a melodia da noite, o som do rio ao nosso lado, o balançar das folhas com a brisa, o barulho dos cavalos respirando e os animais da floresta. Seguimos pela margem conversando sobre assuntos tolos e divertidos às vezes ficando quietos só para apreciar a noite. Eu sentia o cheiro dos cabelos de Sarah a minha frente, tinham um perfume doce, não sei se ela tinha se perfumado para o passeio, mas não achei improvável, ela era muito vaidosa, a Sra. Coppais lhe ensinara isso.
- Vocês gostam de sangue? – Ela nos perguntou descontraída certa hora e eu pude notar pela sua voz que sorria alegremente, mas não entendi a pergunta.
- Como assim sangue? – Perguntou Thomas também não entendendo.
- Vocês sabem... Quando se cortam sai sangue, não é? Vocês já devem ter provado. Gostam do sabor?
Eu não gostava muito, tinha certo gosto de ferrugem e era meio enjoativo de se lamber por muito tempo. Mas Sarah parecia gostar, ficamos discutindo isso por um tempo. Charlie lhe disse em tom de brincadeira que ela era meio doida por gostar disso, foi então que se Sarah calou, senti que ela não tinha gostado. Quis voltar.
- Ora vamos, Sarah. Não temos nem meia hora de passeio e você já quer dar no pé só por essa bobagem? – reclamou Thomas.
- Concorda com ele, Ivã? – Disse ela virando na cavalo para me encarar.
Por que raios ela me perguntou isso até hoje não faço idéia. Eu não sabia que lado tomar. Por que me envolver naquilo? Eu não queria ir embora, então respondi da melhor forma que encontrei que concordava com Thomas. Não foi uma boa idéia.
- SE VOCÊ QUER FICAR, ENTÃO DESÇA DO MEU CAVALO! PORQUE EU VOU EMBORA! – gritou irada e senti que ela começaria a chorar.
- Não Sarah, não é isso, eu...
- DESCE DO MEU CAVALO, AGORA!!! – a voz dela tinha alcançado um timbre agudo e assustador. Eu desci e ela virou o cavalo e o pôs pra galopar.
- SEU IMBECIL! – gritou Charlie para mim – POR QUE A DEIXOU IR? Thomas desça!
Thomas pulou do cavalo e Charlie disparou atrás de Sarah. Lança era mais rápido que Andarilho, eu sabia que ele a iria alcançar. Mesmo assim torcia para que não conseguisse. Imbecil? Ele não podia me chamar assim! O imbecil tinha sido ele! Ele a chamou de doida! Bem, agora eu concordava com ele. Afinal, o que tinha dado nela? No fundo eu sabia que a culpa não era nem minha nem de Charlie e também não era de Thomas. Ficamos nós dois parados ouvindo o som dos cascos na terra fofa diminuindo. Thomas começou a caminhar calmamente na direção em que seguiram os cavalos. Eu fiz o mesmo olhando para o chão.
- Essa menina está mesmo meio doida. – disse ele – A pressão deve estar acabando com ela.
- Como assim?
- Ah, você sabe. A Senhora Coppais e o padre Fixar escolheram essa tarde um noivo pra ela.
Eu tinha me esquecido. Eu tinha sido mesmo um imbecil. Não era hora de contrariá-la. Ela devia estar se sentindo péssima. Comecei a olhar para a escuridão à nossa frente tentando enxergar algo adiante, o som dos cascos já tinha sumido, agora só restava o som de nossos próprios passos.
- Você sabe quem eles escolheram? – Thomas me perguntou.
- Faz diferença? Com certeza não foi nenhum de nós.
Thomas riu, ele sabia que era verdade.
- Bem, eu sei quem é. – disse – Lembra há uns anos quando estávamos nos mudando pra cá? Naquelas carroças?
- Lembro. – respondi agora curioso, o que isso tinha haver com o casamento de Sarah.
- Ótimo. Bem, lembra que paramos em frente a um casarão onde morava um tal Duque que ficou preocupado com a nossa vinda pra cá?
Eu ri, eu lembrava sim.
- Foi aquele que nos fez pensar que a Sarah era uma espécie de menino esquisito?
- Esse mesmo. Lembra dos filhos dele? O mais velho é o aspirante a noivo da Sarah.
Fiquei quieto, eu lembrava, era pomposo como o pai. Com ar de superior, o rosto eu não lembrava muito, mas era bem mais velho que nós na época. Devia ser uns 10 anos mais velho que Sarah. Pra mim era uma diferença muito grande.

Depois de mais um tempo caminhando ouvimos cascos se aproximando lentamente. Charlie e Sarah estavam voltando. Esperamos eles chegarem perto.
- Vamos continuar nosso passeio rapazes. – disse-nos Charlie.
Voltamos calados para nossas garupas. Os cavalos voltaram a andar num ritmo manso e nós continuamos calados até que resolvi falar com Sarah e me aproximei para sussurrar ao seu ouvido.
- Me desculpe. – eu disse baixinho, sabia que não era minha culpa, mas faria de tudo por ela, não me importava quem era o culpado.
Ela suspirou longamente e virou o rosto para me beijar a bochecha.
- A culpa foi minha. – ela me sussurrou em resposta e eu sorri.

Continuamos a cavalgar em passos lentos pela margem do rio. Em meio a escuridão ninguém podia ver, mas eu ainda sorria, abobalhado e feliz. Afinal, o meu estrago não tinha sido tão grande assim. Parei de sorrir quando me lembrei do que tanto afligia Sarah, isso também me atormentaria durante um bom tempo.
Quando vimos que o passeio não ia prosperar muito resolvemos voltar. Charlie perguntou se Thomas queria conduzir o cavalo e eles trocaram de lugar.
- Quer ficar no comando? – perguntou-me Sarah melancólica.
- Não se importa de ficar na garupa?
- Não.
Eu achei que ela estava me testando, mas não estava. Ela desceu do cavalo e eu pulei do lombo para a sela e a ajudei a subir. Suas delicadas mãos seguraram minha cintura quando ela se ajeitou atrás da sela.
- Podemos correr? – perguntou abestalhadamente o sempre alegre Thomas e Charlie concordou. Também me pareceu uma boa idéia.
- Você se importa? – disse eu à Sarah.
- Não, seria divertido. – ela ainda estava melancólica, mas pareceu sorrir.
- Então vamos apostar uma corrida! – gritei para meus companheiros. – Três... Dois... Um... JÁ!!!
Saímos num galope desvairado que nos jogou com força para trás. Seus corpos subiam e desciam em incrível velocidade, era a primeira vez que os via correr assim. Eu soltara as rédeas e me agarrava à sela desesperado enquanto Sarah abraçava minha cintura com força para não ser lançada na escuridão. O vento soprava intensamente em direção a nossos rostos, ao nosso lado uma dupla animada gritava e ria energicamente e Sarah se juntou a eles. Senti às minhas costas o vibrar de seus risos e alegria, foi então uma gigantesca sensação de êxtase me envolveu num doping de pura felicidade. A vida não podia ser mais bela!
Os cavalos desgovernados corriam velozmente enquanto nós quatro ríamos alto em nossa sublime liberdade. Ríamos quando ficávamos para trás, mesmo com a zombaria da dupla que nos passava. Gargalhávamos quando nosso cavalo arranjava mais energia e ultrapassava nossos amigos. Rimos e gritamos quando eles erraram a curva e se embrenharam na floresta e nós fomos atrás. Não conseguíamos parar de rir nem quando os galhos das velhas árvores prendiam em nossos cabelos e nos arranhavam. A mata impedia que os cavalos continuassem galopando, mas não os impedimos que avançassem cada vez mais. Só parávamos de rir para ganhar fôlego e rir mais, era contagioso.
- Onde... Onde aqueles dois estão? – Sarah perguntou quando paramos e soltou minha cintura, ainda estava meio sem fôlego por tanto rir.
Respirei fundo e respondi com o fôlego faltando – Não sei... – puxei mais ar – Perdi eles de vista logo depois que entramos aqui... CHARLIEEE? ! ? THOMAAAS? ! ?
Agora que tínhamos parado de rir a floresta parecia assustadora, soturna e gelada. Sarah se juntou a mim e continuamos gritando seus nomes sem que eles nos respondessem. Isso era ainda mais apavorante. Sarah me segurou novamente fincando as unhas na minha cintura.
- Vamos voltar, por favor. – senti o medo na sua voz. Concordei e tentei manobrar Andarilho entre os galhos e árvores que nos cercavam.
- Acho melhor eu descer do cavalo e ir puxando. – disse.
- Não! – ela me pediu e fincou mais forte as unhas em mim – Por favor, fique aqui... Fique comigo...
Em poucos segundos eu vivera uma salada de emoções. Primeiro fiquei vaidoso, confiante e corajoso, por Sarah ter dito aquilo. Depois eu repetia incessantemente em minha mente o quanto a amava e que era maravilhoso estar à sós com ela, mesmo que suas mãos me machucassem a carne. Então me senti impotente e desorientado, para onde ir? Como tirar-nos dali? Por fim também senti medo, um medo terrível daquele lugar, medo provocado pela noite, por Sarah, pelo som dos animais que estavam ali e pelas malditas histórias de suspense que Alfie nos contava e que sempre, sem exceções, envolviam aquela sinistra floresta na qual nos encontrávamos.

Capítulo 5 (Parte 1)

E eu sabia ser feito de bobo, não sei se estava mais frustrado ou feliz, eu a beijei, ela me enganou. Porém se pudesse, faria tudo novamente. Sarah depois se mostrou um pouco magoada porque eu a beijei, eu não entendi, ela não tinha pedido?
- Era um teste seu bobo, não era pra me beijar.
- Então porque não desviou?
Ela ficou calada por um tempo.
- Você me pegou de surpresa...
Agora eu estava muito confuso pra saber se era mesmo verdade se aquele beijo tinha sido especial somente pra mim ou não. Estávamos voltando, andando lado a lado sobre a grama do quintal e ela agora falava como se nada tivesse acontecido, eu não me expressava muito, mas procurava disfarçar minha tristeza confundida com meu estado extasiado. Sem nenhum dos dois dizer qualquer coisa sobre onde íamos, acabamos no estábulo.
O espaço era amplo e aberto, chão de pedra, armação de madeira, com 5 baias do lado direito. Na primeira baia estava o cavalo de Sarah, um Palomino imponente e forte. Logo depois estava Lança, um belo cavalo negro calçado de brando nas quatro patas até os joelhos e um sinal, também branco, na testa. Mais a diante estava o asno, gordo e cinza com um jeitinho alegre que só os burros tem. A última baia estava vazia, digo, de animais, usávamos-a para guardar ferramentas e ração para os animais.
- Olá Andarilho, como estás? – Sarah perguntou ao cavalo palomino da primeira baia, pegou a raspadeira e entrou na baia para começar a escová-lo. Era seu cavalo, morria de ciúmes dele, brigaria com qualquer um que lhe montasse sem sua permissão, levei anos para notar o quanto Sarah era mimada. – Ivã, pegue pro Andarilho um pouco de milho, por favor. – pediu-me sorrindo gentilmente.
Fui até o saco, despejei de má vontade um pouco de milho no pote e o entreguei a Sarah, ela o despejou no cocho e continuou a acariciar seu animal, ao nosso lado Lança relinchava indignado pelo nosso desinteresse por ele, com pena também lhe servi um pouco de milho. Sarah me perguntou o porquê de eu estar tão calado, há! Como se não soubesse o motivo, ela sabia muito bem. Ficamos ali, calados distraindo-nos com os cavalos para não entrar em qualquer assunto, até que ouvimos passos se aproximando.
- Olá Ivã. Sarah? – era Thomas, tinha acabado de entrar e ao seu lado Charlie.
- Olá. – cumprimentou Charlie - A Senhora Coppais nos mandou cuidar dos cavalos. Aliás, ela está como louca atrás de ti, Sarah, disse-nos que você fugiu da vista dela mais uma vez hoje.
- Depois eu me resolvo com ela. E podem deixar que deste eu cuido. – disse Sarah com um sorrisinho, já fazia um tempo que Sarah e meus amigos se conheciam, poderiam se considerar amigos, mas Sarah ainda parecia insegura perto deles, principalmente de Charlie, falava com ele quando podia, mas não o olhava nos olhos, embora sempre o observasse quando ele não estava olhando.
Eu invejava Charlie nestas horas, eu queria não perceber, não saber que ela estava apaixonada por ele. Eu fingia que era mentira, ela também fingia, não contaria isso nunca a ninguém, era muito orgulhosa para isso. Charlie acenou em concordância com a cabeça pra Sarah e foi cuidar de um cavalo negro, Charlie era o tipo de garoto que nunca se sabia o que estava pensando ou sentindo realmente, por trás de seus atos havia sempre algo que nos fazia pensar qual era sua verdadeira intenção.
- Seria bom se pudéssemos fazer um passeio com eles qualquer dia, o que acham? – disse Thomas indo à direção ao asno, e se dirigindo ao asno começou a falar com uma voz retardada – Ia gostar, não ia burrinho?
- Acho que a senhora Coppais não deixaria – disse Sarah
- Por que não fala com ela Ivã? A Senhora Coppais confia tanto em você. – zombou Thomas
- Sarah poderia usar de seu charme feminino para isso. – comentou Charlie
- Mas fácil o Ivã usar do charme feminino – riu-se Thomas
- Meus caros, vocês não tem idéia o poder de sedução de nossa ilustríssima companheira. – sorri e ela me lançou um fulminante olhar cortante e desaprovador.
- Não duvido caro Ivã, não duvido nadinha. – disse Charlie encarando-a, e ela corou e se escondeu atrás do cavalo sem graça, eu notei, me senti idiota por ter dito aquilo e mais idiota ainda por Charlie ter conseguido deixá-la encabulada por minha culpa, mentalmente eu pensava: Maldição!
- Se bem que charme feminino não deve funcionar de mulher pra mulher... Funciona Sarah?
- Duvido disso Thomas, - falou ainda detrás de seu animal – Comigo não funcionaria. Seria perda de tempo falar com ela... Bem... O que acham de uma pequena aventura?
Acabamos decidindo que faríamos um pequeno passeio à noite sem a permissão da Sra. Coppais, nem nos arriscaríamos à pedir. Mas isso não era para aquele dia, precisávamos melhor planejamento, até porque seria preciso resgatar Sarah do seu quarto onde ela sempre dormia trancada e as chaves estavam sempre acompanhando a Sra. Coppais. Precisávamos de um plano.
Continuamos a conversar enquanto tratávamos dos animais, hora eu ajudava um, hora ajudava outro, nesse vai e vem desligado, fazia as coisas de modo automático, meio em transe, voltei a pensar no beijo, só pensava nele, agora me achava meio idiota por isso, será que Sarah também pensava nele? Eu queria beijá-la novamente, alias, queria beijá-la muitas vezes mais.

Era comum que Sarah passasse a maior parte da semana longe de mim. Víamos-nos menos depois do beijo, falávamos pouco, disfarçávamos nossos olhares encabulados, por alguns momentos pensei que não éramos mais amigos e me senti mal por isso. Pareceu-me que ela me evitava, ou seria eu que a evitava?
É impressionante como nós, seres humanos, temos a irritante mania de complicar as coisas simples, eu poderia simplesmente me declarar. E seria tão bom se ela me aceitasse, nada nos impediria de ficar juntos, fugiríamos, teríamos uma casinha pequena, do nosso jeito e ninguém nos incomodaria lá, seria nosso lugar, e só nosso, e pra lá fugiríamos e nos esconderíamos deste mundo que nunca nos fez bem. É impressionante também como nós, seres humanos, temos a irritante mania de sonhar muito alto, pois eu sabia, esse sonho era irreal.
Eu me sentia tão ridículo pensando sobre o amor, era algo só definido nas histórias fantasiosas de Alfie, era fantasioso demais amar, parecia que só eu amava, ao mesmo tempo achando que ela me amava e sabendo que era mentira. Eu as vezes me achava pessimista, mas não era. Em minha mente Sarah era a garota ideal, mas como todo ideal é só uma idéia nossa, e eu só fui descobrir isso bem tarde, Sarah não era tão perfeita como eu a via. Mas ela era a minha idéia preferida e continua sendo.

Ficamos uns dias sem vê-la, Sarah não tinha conseguido escapar de uma surra e um castigo. A Senhora Coppais estava preocupada com o futuro dela vivendo entre tantos meninos, dizia que teria que casá-la logo e quando o padre Fixar apareceu na terça-feira, como de costume ela discutiu o assunto com ele. Fiquei indignado ao saber que o padre tinha concordado. Logo ele que era tão nosso amigo. Ele ia trazer na próxima semana uma lista com os candidatos.
O que não faltavam a Sarah eram pretendentes e como a Sra. Coppais era sua responsável ficou encarregada de escolher um bom partido para ela. O padre Fixar conversou com Sarah, fiquei sabendo por um dos garotos, ela gritou e chorou, não queria se casar de forma alguma. Eu já tinha conversado o assunto com ela, Sarah não queria um marido arranjado pela Senhora Coppais, queria poder escolher um que amasse. Eu já sabia qual era sua escolha, não era eu. Mas eu não estava ligando muito pra isso quando ela me contara, era minha melhor amiga, por enquanto era o que bastava.
Reunidos naquela manhã fria de primavera às 05h30min eu, Charlie e Thomas estávamos reunidos com os demais garotos tomando nosso desjejum, leite e pão passado, já duro, do dia anterior. Nada que fosse novidade, mas conversávamos animadamente sussurrando sobre nosso passeio as escondidas ainda sem dia marcado, mas ainda tínhamos que bolar uma forma de fuga para Sarah para nosso passeio a cavalo. Eu continuava preocupado com a lista que o padre Fixar ia trazer, ele viria naquele mesmo dia à tarde.
Os rostos à mesa que nos observavam eram familiares, já faziam 6 anos que eu me juntara aos meninos, mas a verdade é que não éramos muito unidos, haviam grupos de 3 ou 4 meninos, normalmente se união pela idade ou por laços de sangue, os três garotos Gorson eram um desses casos, tinham chegado a uns 4 anos e andavam sempre juntos, tinham mais ou menos a nossa idade, mas eram fechados no seu mundinho, Thomas era da idade do irmão do meio e já tentara ser seu amigo, sem sucesso. À cabeceira da mesa estava Alfie, nesses 6 anos estava um pouco mais careca e gordo, o que, quando eu o conheci, acharia impossível.
A Sra. Coppais caminhava entre nós, às vezes espichando os ouvidos para tentar nos entender. Com o passar do tempo eu até passei a gostar dela, assim, ela era uma boa pessoa, só rabugenta e rancorosa, mas no fundo ela era boa e simples, embora no momento em que a vi naquele dia estava muito amargurado com ela naquele dia por conta do casamento que ela queria arrumar para Sarah. Em dias comuns eu sorriria e lhe desejaria um bom dia, mas dessa vez eu procurei ignorá-la e não falar com ela.
Todas as manhãs ela nos dava tarefas como, cuidar do jardim, animais, casa, etc. Aos garotos menores eram sujeitas tarefas mais simples como lavar a louça, varrer a casa e tirar poeira dos móveis, aos maiores as mais difíceis como consertar móveis e arar da pequena plantação no fundo do jardim. Eu e Charlie ficamos com a responsabilidade de consertar as telhas que tinham quebrado com um galho no dia anterior, estávamos reunidos na cozinha quando aconteceu, um estrondo que poderia ser confundido com o som da tempestade lá fora. Corremos para um dos quartos no segundo andar e nos deparamos com as camas cobertas com a água da chuva que ainda encharcava as encharcava, telhas quebradas e pedaços do que seria um galho absurdamente grande do carvalho do quintal.

- Ainda está escorregadio, - me alertou Charlie ao sumir por cima do telhado – Acho melhor deixarmos isso para amanhã. – ele gritou.
- Melhor não. – respondi já chegando ao final da escada que encostamos à parede para chegar ao telhado. – A Sra. Coppais ficaria muito zangada.
Passei as ferramentas para Charlie que em seguida me puxou para ajudar-me a subir no telhado, ao nosso redor tudo parecia meio nublado. Estava realmente perigoso, o telhado tinha criado uma espécie de limo que nos fazia derrapar e estava sujo pelo que pareciam anos de folhas. Caminhamos agachados tomando cuidado para não estragar ainda mais as telhas, elas tinham mais ou menos um palmo meu de largura e um pouco mais que meu braço de comprimento, por sorte o telhado era só ligeiramente inclinado. Arrastamo-nos até o rombo e olhamos o quarto abaixo onde alguns meninos limpavam a bagunça causada pela tempestade, os cumprimentamos e pusemos a por toras e a martelá-las num mesmo ritmo mecânico até que o único vestígio do acidente com o galho fossem as novas toras de madeira que se destacavam no telhado, agora já não estava nublado e o céu azul acima de nós esbanjava um sol branco e agradável.
Enquanto voltávamos e começamos a descer pela escada lembrei-me de uma coisa.
- Charlie, volte! Tive uma idéia.
Subi de novo ao telhado e olhei a minha volta calculando por baixo daquela multidão de telhas os cantos da casa. Alguns passos para frente... Virando a direita... Mais alguns passos... Comecei a remover os pregos de algumas telhas com o martelo, enquanto isso Charlie surgia novamente no telhado.
- O que está fazendo? – Perguntou-me.
- Procurando o quarto da Sarah.
Ele veio a mim e se abaixou começando a me ajudar a retirar as telhas. Quando tínhamos consertado o telhado notei que as vigas que sustentavam as telhas eram distantes o suficiente para que uma pessoa pudesse passar. A minha esperança é que desse para ver Sarah. Retiramos uma telha e olhei para baixo, era o quarto dela. Começamos então a tirar mais algumas.
O espaço que eu bem conhecia da época que a Sra. Coppais ficara doente continuava o mesmo, com a cama de Sarah no centro com mesinhas, uma de cada lado, um armário à esquerda e uma penteadeira com uma cadeira tripé à direita perto da grande janela com um parapeito de onde Sarah normalmente observava a vida lá fora. E lá estava ela, com um vestido branco simples, mas que nela parecia o mais belo que eu já tinha visto, seus cabelos negros estavam pretos por uma fita vermelha num rabo de cavalo. Ela olhava para cima, com certeza tinha percebido o estranho movimento sobre o teto. Assim que me viu abriu aquele claro sorriso surpreso. Ah! Como era belo aquele sorriso! – Ivã!!! – chamou-me alegre. – Eu estava agoniada sem você por tanto... – Ela parou de falar assim que Charlie surgiu ao meu lado.
- Oi Sarah. – disse ele sorrindo à minha esquerda.
- Ah... Oi. Como... Como chegaram aqui?
- A senhora Coppais nos mandou consertar o telhado, soube do que aconteceu ontem à noite no quarto do outro lado? – Charlie respondeu.
- Sim, ela me contou hoje quando me acordou. Não é meio perigoso ai?
- Oras... Meninos travessos aprendem a se virar. – Ele piscou e ela riu.
- Acha que consegue subir aqui, Sarah? – eu disse meio que tentando interromper os dois. E ela pareceu ter me notado novamente.
- Não sei. – Ela olhou para os lados a procura de algo – Talvez... Talvez se eu puder essa cadeira em cima da cama...
Ela pegou a cadeira da penteadeira e arrastou o colchão da cama para por a cadeira ali. Subiu na cadeira e se pôs nas pontas dos pés esticando os braços, suas mãos ultrapassavam um pouco o telhado, era o suficiente para que nós a puxássemos para cima. E foi o que fizemos. Sarah não era pesada, mas não foi fácil, tomamos o cuidado de tentar não fazer muito barulho, por fim, ela conseguiu se sustentar na beirada do buraco que abrimos e assim nós terminamos de puxá-la pela cintura com algumas palavras de reprovação, mas ela mesma entendeu que não tinha outro jeito.
Ela sentou-se ao meu lado, fiquei entre ela e Charlie. Lá ficamos até recuperarmos o fôlego pelo esforço, eu evitava olhar para ela, continuava meio envergonhado. Do telhado víamos a copa das árvores mais altas, e por detrás delas as montanhas nos cercavam por todos os lados, víamos o caminho do rio de águas claras e sentíamos o vento batendo em nosso rosto suado, o sol estava quente, mas agradável. Senti que podia ficar ali para sempre e sorri feliz por Sarah estar ao meu lado. Ela pegou minha mão.
- Isso foi bem legal! É muito bonito aqui em cima, não acha? – disse ela sorrindo e me encarando, sorri e acenei em resposta. Ela desviou o olhar pra Charlie e riu. – Agora já sabemos como fazer aquele passeio noturno.

Capítulo 4

- Admita Sarah, não consegue ser sedutora! – disse eu risonho.
Era a época mais feliz de minha vida. Estávamos lá, como fazíamos todas as tardes que podíamos, eu e Sarah, escondidos atrás de um grande arbusto de pequenas folhas muito verdes. Ficávamos segredando conversas sobre todos tipos de assunto enquanto as folhas nos acobertavam de olhares e ouvidos repressores. Eu em meus 15 anos tinha agora um nariz anormalmente grande. Ela acabara de completar 14 e estava inconformada com as palavras que eu acabara de dizer, era sempre assim, espontânea demais comigo, era minha melhor amiga e eu o dela, pelo menos era o que ela dizia, ela era mais amiga que Charlie e Thomas, com quem sempre conversei, ela era mais.
Quando completamos nosso primeiro mês naquela casa, já tínhamos certeza que a criança de Bianca era uma garota. Thomas, Charlie e eu então fizemos de tudo para conhecê-la e alguns meses depois o padre Fixar tinha decidido que ela viveria como uma criança normal e que era injusto mantê-la prisioneira de seu próprio quarto, é claro, nós demos uma pequena ajuda para esse pensamento, embora a Senhora Coppais fosse sempre irredutível e não concordasse, ela acabou cedendo que Sarah conhecesse seus inquilinos e vice-versa.
A primeira vez que ela foi apresentada à nós estávamos sentados no chão da sala e o padre explicava a nós a situação, disse que ia nos apresentar a verdadeira dona da casa e que confiaria em nós para nos comportássemos da melhor maneira possível. Foi até bem rápido, a senhora Coppais à trouxe, uma menininha linda de rosto redondo, cabelos negros e olhos claros, todos à cumprimentaram e ela nos cumprimentou. Adoráveis minutos em que eu a vi de perto pela primeira vez, ela nem tinha me notado, eu estava sentado no meio dos garotos, realmente não chamava muita atenção. Mas ela notou Charlie, acho que ele chegou atrasado com esse propósito, tinha ido buscar Alfie no estábulo, mas havia demorado mais do que o convencional, ela estava quase indo embora quando ele surgiu pela porta fazendo barulho. Charlie parecia sempre pensar em tudo, ou ao menos eu pensava que ele planejava tudo, sempre no lugar certo, na hora certa, ele sabia chamar atenção sem parecer querer isso. Eu o invejava, lutava contra isso, mas sim, eu o invejava.
Comecei a tomar mais contato com Sarah quando a Sra. Coppais ficou doente. Nessa época ela já confiava em mim o suficiente. Ela se mudou pro quarto de Sarah, mas não podia cuidar dela, então me mandava levar e trazer refeições e o que mais fosse preciso. Confiava mais em mim do que no próprio Alfie, mas o único em que confiava inteiramente era o padre Fixar. Mas ela se arranjava com minha ajuda já que o padre tinha muitas coisas a fazer além de nos visitar.
Fiquei um pouco mais de uma semana levando e buscando bandejas, das vezes que a Sra. Coppais adormecia nós conversávamos, normalmente ela começava os diálogos, meu nome, como estava o dia lá fora, relatos dos meninos, como eram, como se chamavam. As vezes ela escrevia num livro, eu não sabia ler, muito menos escrever, essa foi uma das coisas que mais me encantou nela. Uma vez o padre tentou ensinar-nos a escrever, ia duas vezes por semana até a antiga casa de Alfie e lá nos ensinava, ou tentava, acabou desistindo por falta de interesse da nossa parte. Thomas e mais um garoto eram os únicos que davam atenção as aulas, eu e Charlie achávamos perda de tempo, embora na época não fossemos amigos. O resultado era que Thomas era o único de nós que sabia ler e escrever, às vezes o padre o trazia algo para ele praticar, normalmente passagens religiosas, algumas ele mesmo escrevia já que as passagens eram em latim e já era suficientemente difícil ler, ler em outra língua era demais para qualquer um de nós. Soube eu que ele também levava passagens para Sarah, o latim dela era razoavelmente bom. Eu me arrependi muito de não ter dado importância à aquilo quando vi Sarah escrevendo, ela me contou que tinha sido o padre que a tinha ensinado e que ela estava escrevendo relatos da sua história, mas eu não poderia ver, ninguém podia além dela. A senhora Coppais não sabia, embora se soubesse não faria muita diferença, pelo que Sarah tinha dito ela também não sabia ler.
Quando a senhora Coppais melhorou, eu bem queria que não tivesse melhorado, eu passei a não ver Sarah novamente. Foi quando ela começou a usar sua persuasão, implorava para o padre que a liberasse para conviver conosco uma vez por semana, o padre sempre foi muito gentil e não resistia aos pedidos de uma garotinha prisioneira por isso acabou liberando, mas teria que estar sempre acompanhada. Mesmo com esse ultimo item a senhora Coppais estava inconformada e quando Sarah saia do quarto o tempo fechava para a Sra. Coppais, tudo era motivo de reclamações e castigos.
Com o tempo Sarah passou a sair duas ou três vezes por semana, algumas andava a cavalo, era um dos seus passatempos preferidos, outras vezes se juntava a nós para ouvir histórias de Alfie, mas as melhores histórias ela perdia, pois com a Sra. Coppais por perto Alfie não se arriscava a contar histórias encantadas. Sarah só conversava conosco quando os ouvidos da Sra. Coppais estava razoavelmente longe ou quando ela estava aos cuidados do padre Fixar, às vezes ela sumia da vista dos dois e quando a Sra. Coppais notava ela ficava mais de uma semana sem nos ver. Até o padre convencê-la a liberar Sarah novamente. Sarah queria cada vez mais liberdade, não sabia como era privilegiada por ter um pouco dela.
Sarah nunca se conformava, tinha um espírito aventureiro como poucos, as histórias de Alfie as inspiravam muitas vezes, as histórias de aventura eram as suas preferidas, principalmente quando envolviam algum romance, romances proibidos, ela os adorava. A Sra. Coppais, por sua vez, as detestava, às vezes interrompia a história ou levava Sarah pro quarto quando começava uma parte que a desagradava, ela e Alfie não se davam muito bem, embora convivessem sem maiores problemas, o padre era quem realmente mandava naquela casa, diga-se de passagem, na aldeia também, intermediando as discussões e chegando a um acordo.
Conforme a liberdade de Sarah foi crescendo ela foi tornando-se minha melhor amiga, afinal eu era o preferido da Senhora Coppais, sempre prestativo e educado, interesseiro também, não nego, fazia isso sempre para poder ficar o mais perto possível de Sarah e após conquistar a confiança da velha Coppais, eu era a melhor pessoa que ela indicaria para ser amigo de Sarah, e mesmo assim ela estava sempre atenta a nós.
- Eu sei ser sedutora quando quero!
Ela era sedutora mesmo sem perceber, a verdade era que Sarah já tinha me conquistado há muito tempo, e não só por ser uma garota, como a menina da aldeia de anos atrás, eu estava completamente apaixonado! Por anos e anos, por dias e dias, e em todas horas, parecia que eu não pensava em mais nada. E ao mesmo tempo em que comigo ela era tão natural eu sempre era receoso quando estava com ela, embora não demonstrasse. Tinha me tornado a melhor pessoa para esconder sentimentos. Agora não me faz sentido porque eu os escondia dela, mas acho que eu tinha medo de contar o quanto ela me era importante. Eu procurava irritá-la e desprezá-la às vezes e ela me retribuía da mesma forma o que para mim era terrível, no entanto nem eu nem ela conseguíamos ficar zangados um com outro por mais de umas horas. Eu já tinha me acostumado com sua voz zombeira e sempre inconformada, com aqueles grandes, doces e penetrantes olhos azuis, a pele branca como inverno e quente como verão e seus sedosos cabelos negros, o jeito sempre em metamorfose, mas sempre aquele mesmo jeito pelo qual eu me apaixonara e do qual não me imaginara sem.
- E como sabe, eim? Já seduziu alguém? – respondi.
Eu realmente esperava que não, embora soubesse que era inevitável que outros se apaixonarem por ela, embora eles não fossem amá-la tanto quanto eu a amava, isso era impossível. Eu tinha medo que ela chegasse perto de mais algum garoto, até mesmo Charlie e Thomas, principalmente Charlie. E é claro que ela tinha me seduzido, mas eu não a deixaria descobrir, não era confiante em mim o suficiente, mesmo que perto dela eu bancasse o superior.
- Não deve ser difícil, ser uma mulher já é meio caminho andado. – disse-me com aquele sorrisinho irônico. O sol quer penetrava entre as folhas do arbusto que nos escondia iluminava seu rosto, eu não cansava de admirá-lo, mas tinha que continuar com nossa pequena encenação para nós mesmos.
- Mulher? É apenas uma garotinha! – Zombei tentando desafiá-la, dizendo sem palavras, “Mostre-me que é mulher!”.
- Há! – riu-se tentando demonstrar que eu-não-sabia-de-nada, mas eu percebi que ela não estava segura de si também, era um teste, ela sabia, eu a estava testando e ela ia me testar também.
- Nem mesmo parece uma garotinha, - provoquei - age mais como um menino! É pior que Charlie e Tho...
- Cala-te! – ordenou-me com uma autoridade que me surpreendeu, mas de um jeito doce, quase um pedido, ela me encarava. – Cala-te... E dê-me um beijo.
E uma corrente de pensamentos irrompeu numa corrente incoerente. Fora mais rápido do que eu pensara, não estava preparado. Parei. Gelei. E o meu coração disparou. Havia um frio no meu estômago. De meu corpo subiam labaredas de calor que me dominavam, acho que corei. Meus pensamentos ficaram ausentes.
- Quer mesmo um beijo? – E com isso eu dizia, QUEIRA um beijo!
- Dar-me-ai um beijo? – Ela agora estava falando daquele modo cortes e complicado típico dos nobres que a ensinavam e que eu ainda não entendia bem, mas me encarava e sua boca não tinha se fechado totalmente, ela queria um beijo!
- Dar-te-ia tudo que me pedisse. – Arrisquei, me pareceu bom, mas minha voz tinha um ar de imploração, Peça-me um beijo!
- Deu-me então, tudo que eu sempre quis. – O que? Eu não tinha entendido, era confuso! Confuso! Completamente confuso, então eu interpretei da maneira que conseguia, da maneira que eu conseguia raciocinar, eu nem mesmo conseguia raciocinar! Da maneira que melhor me convinha. Eu a beijei.
Fechei meus olhos e deixei meus lábios encontrarem os dela, e só pensei naquilo, e um turbilhão de emoções me vieram e eu me concentrava só naquele beijo, naquela pressão sobre meus lábios, o resto eu não me importava, o resto, não existia. Uma onda gelada atravessava meu estômago devagar. Permaneci ali até que o fôlego me faltou, eu até mesmo me esqueci de respirar. Não tinha durado nem 1 minuto, mas foi o 1 minuto mais longo da minha vida. Afastei-me, ainda com os olhos fechados e ofegando devagar, com o coração explodindo em minha boca, eu sentia minhas pulsações por todo corpo, eu ouvia minha respiração em sincronia com a de Sarah, eu sentia o calor dela. Ela era mulher do jeito que eu nunca imaginara uma mulher, era mais do que eu jamais imaginara.
E quando abri os olhos ela ainda estava lá, de olhos fechados, de joelhos na grama a poucos centímetros de mim, com o rosto sereno e feliz, uma brisa balançava seus cabelos, eu queria beijá-la novamente. Tinha que beijá-la novamente. Ia fazer exatamente isso quando aqueles olhos azuis me encararam novamente, doces e ingênuos. Eu não soube o que fazer, eu não conseguia pensar. E em um instante o rosto sereno em ingênuo ganhou uma aparência zombeira, era a Sarah minha amiga de volta e ela me disse: Eu disse que sabia ser sedutora!

Capítulo 3

Desde quando vim para a casa de Alfie, poucos saíram e muitos entraram, era difícil dizer se ele conseguiria manter o lugar por mais uma semana. Agora fazia dois anos que eu estava lá e sabia como as coisas funcionavam, quando ficava muito lotado, os mais velhos tinham que partir, embora Alfie fizesse de tudo para manter-nos lá pelo menos até os 16 anos, que ele considerava ideal para nos liberar. O padre Fixar nos dava certa quantia em dinheiro, quando o possuía, algo que desse pra comprar uma vaquinha magra ou algo do tipo.
Depois da missa de domingo enquanto voltávamos caminhando para casa com os outros garotos, notamos que Alfie ficou pra traz, parecia discutir sobre algo importante com o padre. E naquela noite ele reuniu todos os meninos na sala, sentou em seu banquinho tri-pé de madeira e nos disse que já não dava mais. Não conseguiria manter-nos num lugar tão pequeno e que a partir do dia seguinte iríamos ter que nos mudar.
- Mas não se preocupem, - disse ele, ironicamente, com um sorriso preocupado – eu irei com vocês. Sabem, a um casarão perfeito fora dos muros da cidade, um pouco afastado. Lá tem muito espaço.
Um falatório incompreensível começou. Alguns garotos reclamaram, outros queriam saber mais... Eu estava completamente inconformado! Sair daquele lugar? Aquela era minha casa! O lugar que eu mais estava à vontade no mundo! Logo agora que estava tudo indo tão bem... A raiva parecia apertar meu peito de tal forma que me sufocava, mas por fora lá estava eu... Inexpressivo, impassível... Ao meu lado Charlie reclamava muito e eu me sentia como ele.
- Por que raios vamos mudar? Eu gosto daqui! Não quero ir, eu não vou!
- Quieto, Alfie está tentando falar! – Thomas o advertiu, parecia mais severo, parecia mais maduro, nos revelou outra face sua.
E quando os garotos se calaram Alfie pareceu zangado, mas melancólico, ele também não queria ir, isso eu entendia, ele precisava ir conosco, por que nos amava mais do que seu próprio lar.
- Nós vamos embora amanhã, não tenho como mudar isso. Quero que peguem o que lhes pertence e amanhã vocês me ajudaram a levar tudo para a nova casa. Acreditem, vão gostar de lá. Eu mesmo olhei o lugar, é bonito.
A minha volta, vi os rostos tristonhos de meus colegas, era triste pra todos nós, menos para os mais recentes ali, para eles não fazia muita diferença, os mais novos também não se incomodavam. Charlie já tinha se acalmado, suas expressões mudaram e ele deu um pequeno sorriso dizendo:
- Então... Que tal uma última história em frente ao forno em Alfie?
E de todas as coisas que qualquer um poderia ter dito, Charlie falou a melhor. Naquela sala, todos sentados pela última vez em frente ao forno de lenha que nos aquecia e libertava suas mentes, lá todos nos esquecíamos dos nossos problemas. Alfie sorriu animado e moveu seu banquinho tri-pé colocando-o em frente ao fogo. E como sempre, sua voz grossa ganhou um tom de mistério e magia que nos deixava em transe, ele nos lançou um sorriso de lado e seus olhos negros e pequenos brilhavam.
- Sei a história perfeita pra vocês... – e narrou - “Quando ainda existiam muitas mulheres por aqui, uma moça, não tinha como criar sua pequena criança. Certo dia, ela soube de um lugar encantado, onde o povo das fadas habitava. Em busca desse lugar, ela andou 27 dias, dias em que ela quase não se alimentou, só parando para cuidar de sua pequena filha, seu marido, a pouco tinha morrido, e ela estava só. No final do 27 dia, ela sentou as margens de um rio, mal sabia que aquele era o lugar. O lugar que viera procurando. As águas do rio eram calmas e faziam um som ritmado e agradável. Não foi preciso dizer nada, o povo das fadas veio até ela, e lhe levaram a linda menininha, que mal tinha um ano, a mulher então, tendo cumprido sua missão, adormeceu a margem do rio, para nunca mais acordar.
A Menina cresceu e foi criada ao modo do povo das fadas que valorizava muito a vida, seja ela de um lobo ou de uma pequena borboleta, lá lhe ensinaram os segredos das florestas, o poder curativo das plantas e a adoração à Grande Mãe. Já mulher, Bianca conheceu um rapaz, e eles foram amantes, mas era proibido, pois o rapaz era romano. O povo das fadas por muito tempo tinha sido massacrado pelos romanos, eles os exilaram para as florestas, expulsando-os dos campos, vales e montanhas onde também habitavam, proibindo suas crenças e profanando seus costumes. No entanto Bianca sabia, aquele romano era diferente e se casou com ele ao modo dos romanos, adequando-se também à sua religião, como deveria ser, na cultura romana.
Quando o povo das fadas soube jurou vingança ao romano que tinha desposado uma de suas mais queridas mulheres, eles achavam que ele a havia obrigado a tal coisa. No 27º dia do casamento de Bianca Aêrrok, seu marido tinha saído, convocado pelas tropas, mas ele não chegou até elas e também não voltou mais, ela sabia que era obra do povo das fadas. Com a raiva consumindo se peito, invadindo sua mente, ela travou uma imensa discussão com o povo que outrora haviam-na acolhido. Revoltado o povo das fadas lançaram um feitiço aos humanos dessa região, que visava nunca mais permitir que nascessem meninas desde aquela data, a não ser por casais que estivessem num romance sincero.
Bianca começou a adoecer depois da morte de seu amado esposo, mas tinha algo para que viver, aquele não era seu momento, Bianca valorizava tanto a vida, que mesmo em beira a morte juntou esforços para dar a luz a uma pequena criança, num dia chuvoso como o de ontem. Da criança ela cuidou, com a ajuda de uma criada, uma velhinha magra em quem ela confiava inteiramente. Quando a criança fez nove anos, Bianca pediu para ser levada a margem do rio, lá, ela mandou que doassem sua mansão as crianças que não tinham lar, deixou a filha aos cuidados da criada e do padre e então, despediu-se do mundo.”
Ele se levantou de sua cadeira e como um baque nós saímos do transe meio confusos.
- Como essa foi à história perfeita pra nós? Nunca nos contou história tão melancólica e triste. Ela merece um final melhor! – disse um garoto um pouco mais velho que eu.
Alfie encarou o menino que tinha falado.
- Meus pequenos, o final dessa história está em nossas mãos, pois estamos dentro dela meus caros, - dirigiu-nos um sorriso - Bianca Aêrrok acaba de deixar sua casa pra nós e é pra lá que estamos indo amanhã.

As carroças lotadas de meninos e seus pertences rodavam lentamente pela larga estrada de terra, fora dos muros da aldeia, em um ritmo gostoso, que deixava a vontade aqueles que queriam logo conhecer o novo lar, esses iam sorrindo correndo ao lado das carroças, as vezes cutucando os bois com varas para irem mais depressa, e também agradava aqueles que queriam voltar, como eu e Charlie, que logo agora tínhamos encontrado uma fascinante aventura para as noites. Thomas parecia indiferente, só queria estar conosco, mas ainda mantinha certa precaução com Charlie desde a discussão.
Do lado direito da estrada, a densa floresta tampava nossa visão, as árvores eram grandes e velhas lá dentro, mas as margens eram de árvores ralas de fácil corte, mas ninguém se atreveria a cortá-las. Alfie nos levara ali certa vez para um piquenique, mas ficamos na outra margem, um campo de capim alto, na época estava verde com muitas flores, hoje ele estava seco, naquela margem tinham algumas árvores, nenhuma tão imponente quanto a margem oposta. A floresta era a imagem viva das histórias de Alfie, mágica e majestosa, exalava um cheio de madeira velha, um ar denso vinha de lá quando o vento batia sobre as árvores.
Aproximava-se uma mansão, feita de pedra, tinha grandes janelas e uma torre média, um magnífico jardim. Era cercada por um baixo muro, também feito de pedra. Os garotos gritaram ao se aproximar, mas não era a nossa casa. O padre vinha conosco, ele pediu que esperássemos. Ele foi falar algo com alguém na casa, era um homem alto cabeludo e barbudo, usava uma roupa muito formal, parecia deveras muito importante. Um garoto saiu correndo da casa, deveria ser menor que Thomas um pouco. Cumprimentou o padre e correu pelos jardins em nossa direção quando surgiu um novo garoto, este por sua vez era mais velho que eu, parecia tem seus 18 ou 19 anos. Pareceu não gostar daqueles garotos, ou melhor, de nós. Olhava-nos com desprezo, veio em nossa direção junto com o eclesiástico e o Senhor que deveria ser seu pai.
- Estes são os garotos que irão à mansão dos Aêrrok padre? – perguntou o Senhor.
- Sim, os mesmos, Senhor.
Vi que o garoto dizia algo de reprovação ao pai, enquanto isso o menininho se esforçava para nos observar por traz do muro curioso. Eu permanecia sentado na carroça do meio de outras duas em fila. Ao meu lado Charlie e depois dele Thomas.
- Não gosto nada desses pomposos ai. – sussurrou a nós Charlie
- Não vejo mal no garotinho – comentou Thomas
- Espere-o crescer Thomas – alertei eu em tom descontraído, eu nunca dei muita atenção a esse tipo de gente, eram fúteis, desinteressantes, via-se que se achavam superiores, como eu os achava ridículos. O Homem veio em nossa direção, avaliou-nos com seus olhos apertados.
- Não acho que seja adequado que eles vivam na mansão meu caro padre. A criança, ainda mora lá certamente.
- Sim, e continuará morando. – disse o padre severo. – Sra. Aêrrok deixou-nos bem esclarecido, que queria que sua... criança crescesse com as demais.
O homem pareceu inconformado – A duquesa deveria estar delirando, ela estava muito doente padre. Não é como as outras crianças a dela.
- Não importa, foi o último desejo dela. Assim será.

Meu grupo estava curioso, descemos da carroça e nos aproximamos para observar melhor. O homem continuou a tentar mudar a idéia do padre, mas de nada adiantou.
- Me garanta! – implorou por fim – Me garanta que nenhum deles chegará perto.
O padre o encarou severo – Ela está segura aos meus cuidados Duque Kyout não me importune mais com isso.
Por fim o padre abençoou-o e voltou às carroças para que pudéssemos prosseguir. Partimos, sedentos de curiosidade, o que esse garoto tinha afinal? Será que era meio monstro? Será que o povo das fadas o tinha feito ficar horrendo? O que ele tinha de tão ruim? Seria adoentada ou enferma? Ou será que o Duque sei-lá-das-quantas tinha tanto medo de nós que achava-nos capazes de atacar um garoto sem mais nem menos?
Thomas tinha as piores teorias, achava que o menino devia ser um corcunda caolho, ou uma versão masculina da medusa, ou tão belo que nós o invejaríamos tanto que o mataríamos. Charlie pensava em coisas mais sensatas, algumas interessantes do tipo “O garoto deve ter muito ouro, talvez se vista com ele. Vai ver o Duque tenha medo de nós o roubarmos.”. E sempre terminava com “Mas é só uma hipótese.”. O fato era que agora sim, aquele novo lar parecia-nos interessante.
Alguns garotos também ouviram o Duque, estavam mergulhados em suas mais loucas fantasias criativas como nós, alguns a exclamavam em voz alta, mas sempre longe do padre que não se agradou nada quando o primeiro fez isso. Alfie ria de nós, ah... Ele sim sabia. Vi isso em seus brincalhões olhos de besouros. Invejei-o por aquilo, rindo de nossas teorias, sei que a maioria era ridícula, mesmo assim, não conseguíamos pensar em nada melhor.
Não haviam muitas moradas fora dos muros da aldeia, tinham 1 ou 2 pequenas fazendas, mas era só. A mansão parecia não chegar nunca, até que viramos, saindo da trilha principal, parecendo entrar pela mata, numa trilha fina, a copa das árvores se entrelaçava por sobre nossas cabeças bem ao alto, lá era úmido e frio, deu-me calafrios. Não era tão criança para sentir medo, lutava contra ele, mas as histórias de Alfie nunca me ajudaram nisso. Os outros garotos também eram receosos, por toda passada pela floresta eles se calaram e se agruparam nas carroças. Meio quilometro de floresta e ouvimos ao longe o agradável som de um rio, começava a abrir uma clareira muito extensa iluminada pelo sol quente e depois se acabava a floresta.
Lá estava a mansão, ao contrário das que eu estava acostumado ela era, na maior parte feita de madeira, não tinha muros e nem uma torre. O jardim parecia mal cuidado e tinha uma baia com alguns cavalos. A mansão era grande, dois andares somente, mas muito ampla, a madeira das paredes começava a se decompor, estava gasta e em algumas partes tinham enormes rachaduras. No entanto, era uma bela moradia, devia ser linda em seus prósperos dias e o mais importante, tinha espaço para todos. Alfie comentou algo sobre, fazer uma grande reforma em que todos garotos ajudariam, agora passávamos dos 20.

As três carroças pararam à soleira da grande porta, descemos enquanto admirávamos nossa nova casa, não parecia má de se viver. Alguns garotos exploravam o quintal, mas ninguém tinha decidido entrar, o padre Fixar entrou, mas ninguém o seguiu. Voltou em pouco menos de 5 minutos enquanto checávamos a baia dos cavalos, onde tinham dois desses magníficos animais e um asno. Ao lado do padre tinha uma velha senhora, lembro-me dela na história de Alfie, a criada magra, mas cruzes, como era feia, corcunda de olhos apertados e perto do padre ficava ainda mais baixinha, devia ter quase 50 anos, uma aura de morte pairava sobre ela, achamos que ela não viveria por mais muito tempo.
Ela nos olhou inquieta, parecia falar sem parar, chacoalhava os braços e todas as direções. O padre levou as mãos ao rosto cobrindo a face, parecia que a coisa não estava indo lá muito bem. Ele pos a sua mão em um dos ombros da criada, encarando-a e começou a falar, seja lá o que ele disse parecia ter funcionado. A velha confirmou algo com a cabeça e entrou, o padre então chamou os garotos. Eu, Charlie e Thomas que ainda estávamos na carroça descemos pulando para a grama infestadas de ervas daninhas.
Alfie reuniu-nos e fez 2 filas, pedindo a toda hora que nos comportássemos como os anjos do Senhor, fui no fim da fila direita com Charlie e Thomas, estava com um certo frio na barriga de quem vai enfrentar algo que ao mesmo tempo que acha bom, acha que algo vai dar errado. Aquele garoto que o Duque citou não ajudava em nada a me confortar. Assim que estávamos à postos Alfie foi para o começo das filas e segurou as mãos dos dois garotos da frente, soltou um longo suspiro e nos guiou até a casa.
Quando passamos pela porta, meu coração já acalmara, estávamos numa sala muito ampla e alinhada, feita em sua maior parte de madeira, tinha um grande tapete em cores escuras sobre o chão de pedra, o teto era alto e em cima de nós víamos o segundo andar de meio oco onde as paredes continuavam até o teto sem se encontrarem com ele. A minha direita e a minha esquerda tinham duas escadas que levavam a passarelas encostadas à parede, das passarelas podia-se chegar à várias portas ligadas a parede como um extenso corredor suspenso. A sala não tinha muitos móveis, tinha uma cômoda com sobre ela um castiçal e alguns velhos sofás rústicos a sala era iluminada por algumas velas em castiçais nas paredes e duas grandes janelas na parede do fundo.
Mandaram-nos sentar no chão e nos apresentaram a Sra Coppais, a criada, e enquanto estávamos sentados no chão frio, ela citava as regras da casa, onde dormiríamos, onde não poderíamos ir e o que teríamos que fazer para manter a paz naquele lugar. Ela tinha uma voz irritantemente fina e surpreendentemente baixa o que nos obrigava a fazer um silêncio mortal e prestar a máxima atenção. Ela não falava nada que Alfie já não tivesse nos alertado, por esse motivo eu, que sentava no fundo, era um daqueles que fingia prestar atenção, mas tinha os pensamentos voltados para a sala a minha volta, mas além de mim, creio que ninguém tenha visto a porta do andar acima abrir e olhos brilhantes espiarem pela fresta, só eu vi, mas ninguém. Foi então que entendi, a criança não era um garoto.

Capítulo 2

A rua a noite era iluminada por algumas poucas tochas e naquela idade eu já conhecia a aldeia, ia com Alfie algumas vezes vender a lã das ovelhas ou trocar por alimento. Mas à noite a rua era diferente, com um ar sombrio. Fora dos muros, como eu já vira uma vez indo com um grupo procurar lenha, era uma floresta fechada repleta de ajoncs, turfeiras, sorbiers, alguns poucos carvalhos e urzes, que eram as minhas preferidas, principalmente as de flor branca. Da floresta Alfie contava lendas, duendes, fadas e outros seres, o padre Fixar tinha o proibido de alimentar nossas mentes com essas besteiras, não adiantou, Alfie continuou a contar, desde que não contássemos ao padre. Eu gostava dessas histórias, mas as temia, não gostava das criaturas noturnas desses contos, não eram seres amigáveis.
A noite estava gelada e eu não tinha me agasalhado, mas não me importei com isso. Procurei os dois na praça principal e pelas ruas que estava mais acostumado, mas foi em vão. Depois de um bom tempo os procurando foi que os achei, perto de uma casa, embaixo da janela, pularam o muro. Fiquei os observando por um tempo sem que eles notassem minha presença. Às vezes eles olhavam pela fresta da janela e voltavam as suas posições com sorrisos que eu bem conhecia.
Aproximei-me deles um pouco mais... E mais uma vez... Cheguei mais perto, até estar já no muro. E então criei coragem para seguir os espertalhõeszinhos, pulei o portão e eles me notaram assustados. Agachei receoso e fui ao encontro deles o mais silenciosamente possível, suas expressões pasmas me avaliaram por alguns instantes, eu estava com um embrulho na estomago e um aperto no peito, ofegava como um louco. Thomas ainda parecia atordoado por eu ter estragado a sua brincadeira, no entanto Charlie voltou a sorrir naquele modo malicioso.
- O que faz aqui senhor esquisito? Veio se juntar aos baderneiros?
Não entendi se aquilo era um passa fora ou um convite, na verdade eu mesmo não sabia o que estava fazendo ali, debaixo daquela janela.
- O que estão fazendo? – foi a única coisa que consegui dizer.
- Não é da sua conta menino das ovelhas. – indignou-se Thomas, eu tinha certeza de que ele sabia meu nome, mas me chamar de menino das ovelhas lhe era mais confortável, deixando claro, de que pra ele eu jamais deveria ter aparecido.
- Ora vamos caro Thomas, deixe-o participar. – Charlie indicou para mim a janela – Vamos, dê uma olhada. Mas tome cuidado.
Olhei para os dois apreensivo, precisava ver o que tinha lá. Tomei fôlego e acalmei-me, embora a adrenalina ainda persistisse, virei de frente para a parede. E fui lentamente me erguendo para a janela, pus minha mão na borda da janela e olhei acima, era só um cômodo escuro. Olhei para os dois ao meu lado.
- Não tem nada. – sussurrei.
- Olha em baixo da janela. – Sussurrou Thomas em resposta.
Com o peito aos pulos, debrucei-me sofre a janela. Tinha uma cama abaixo e lá, tinha uma moça, senti meus olhos abrindo e o coração acelerando ainda mais. Como era linda, devia ter 13 anos ou por ai, parecia mais velha que nós, a pouca luz que vinha das tochas da rua iluminavam somente parte do seu rosto. Era a primeira garota que eu via e poderia ficar ali olhando a noite inteira, mas me puxaram pra baixo com um puxão. Acordei do transe que tinha se apoderado de mim e voltei pra baixo da janela, virando-me para a parede e me apoiando nela respirando devagar.
- Bonita não é? – comentou Charlie com um sorrisinho.
- É linda. – respondi ainda descrente do que vi.
- Charlie que descobriu, – contou Thomas animado – quando a ele tava indo chamar o padre pra missa, semana passada, quando ele chegou atrasado. Não foi Charlie?
- É, é, foi sim. Mas agora temos que ir. Já ficamos tempo demais aqui.
Naquela noite eu não dormi, excitação, queria vê-la de novo, Charlie tinha dito que faríamos de novo amanhã e que não era pra contar pra ninguém. Como se eu falasse com alguém, há!

Depois do desjejum do dia seguinte eu precisava falar com os dois. Por que nunca tinham mulheres nas ruas? Seria aquela a única? Qual era o nome dela? Ah, eram tantas perguntas. Eu tinha que respondê-las, eu tinha que saber. Naquela manhã conversavam aos cochichos do outro lado da sala, eu os observava e de vez em quando nossos olhares se cruzavam. Não precisei ir atrás dos dois, eles sinalizaram para mim quando acabaram o desjejum e lavaram o copo sujo de leite de ovelha.
Corri para terminar o meu copo e sai à procura deles, estavam no quintal de trás, em baixo de um ajoncs que florescia com pequenas flores amarelas. Fizeram sinal para que eu me aproximasse. Sentei-me em frente a eles e em nosso grupinho fechado naquela roda tive meus primeiros amigos.
Charlie era mais sério e calculista do que eu imaginara, fez-me prometer que ia guardar segredo de tudo e contou-me porque estava permitindo que eu os acompanhasse em suas aventuras, precisava de mais uma mente pensante no grupo, já que Thomas não era o que se podia chamar de muito esperto. Estiveram me avaliando esses anos também, eu era cauteloso e discreto, era perfeito para um novo integrante, desde que não os traísse e era claro que eu nunca iria contar nada, só para ver aquela garota de novo, assim, me incluíram no grupo.
Charlie se apoiou na árvore após seu pequeno discurso, ficou olhando as flores amarelas lá em cima, Thomas o imitou, eu apenas os observava, não sabia se podia os considerar amigos ainda, embora eles tenham me incluído em seu grupo. Baixei os olhos e fiquei movendo a poeira do solo seco, já era hora de começar a responder minhas perguntas.
- Por que... Por que eu nunca vi garotas antes?
Thomas me observou, mas não respondeu. Charlie continuava concentrado, parecia meditar olhando o balanço das flores ao vento.
- Porque há anos não nascem mulheres por aqui, - disse Charlie ainda meditando com suas flores – e nem em lugar algum por essas bandas. As poucas que nascem são prometidas aos pomposos nobres e ficam trancafiadas nas suas casas até o dia do casamento. – ele agora me olhava – Se tem alguma esperança de namorar uma garota, é perda de tempo. Teve sorte por ter visto uma.
Senti-me enrubescendo, era essa mesmo minha esperança. Senti a tristeza e inconformação me invadir, queria acreditar que não era verdade, mas no fundo eu sabia que era. Esperei Charlie voltar a sua meditação, não gostava do olhar dele sobre mim, embora eu não tivesse dele o que temer.
- Como sabe de tudo isso?
- Sabendo... – respondeu-me com um bocejo.
Ele então esticou as pernas para ficar mais à vontade, colocou os braços sob a nuca e pareceu dormir. Thomas me olhava de vez em quando, às vezes me sorria encabulado quando eu retribuía-lhe o olhar.
- Eu não sou tão burro quanto Charlie acha. - disse ele baixinho para mim, parecendo temer que Charlie o escutasse.
- Aposto que não. – um sorriso bobo apareceu e os olhos muito azuis de Thomas se alegraram. Percebi que eu estava sorrindo e parei. – Vamos vê-la de novo?
- Oh sim, essa noite. – sussurrou ele com uma exaltação na voz. Senti-me um pouco mais feliz, podia vê-la, mas não tê-la. Minhas emoções estavam ausentes por tanto tempo, que agora que as tinha, senti como se doía o peito, não do amor que sentia pela garota, mas pelo ódio de não poder possuí-la. Essa era minha sina.

Debaixo daquela mesma janela mais uma vez, era o quarto dia seguido que íamos vê-la, mesmo assim, sentia que era a primeira vez. Apoiamo-nos na parede para recuperar o fôlego da euforia, eu tinha esperado o dia inteiro pra isso, ultimamente eu só pensava nela. Quando saíamos na cidadela com Alfie ou outro garotos, eu evitava ao máximo olhar para a casa, mas era bem difícil, por sorte ninguém reparava no garoto das ovelhas. Ela não era tão bonita assim, tinha o nariz ligeiramente torto, sobrancelhas grossas e era mais gorda do que qualquer um dos garotos de Alfie, mas não importava, cada vez que eu a olhava sentia que ela era a coisa mais bonita que eu já tinha visto. Talvez pelo simples fato de ser uma mulher. Eu adorava vê-la dormir, sentia sua respiração lenta, a pele branca parecia neve, delicada e fria, mas dela exalava calor, meus olhos eram vidrados e ciumentos. Pois eu sabia que Charlie e Thomas a viam da mesma forma.
Nos últimos dias quando me sobrava um tempo extra eu me juntava com os dois, era estranho pra mim, ter amigos, se é que eu já os podia chamar assim. Parecia-me que eles eram indiferentes a minha presença, mas não me ignoravam. Passei a gostar da companhia deles, passei a falar um pouco mais quando certo assunto me interessava, mas continuei cauteloso. Thomas era extremamente tagarela, e piadista, parecia que até os infortúnios alheios o divertiam, às vezes chegava incomodar. Charlie costumava se divertir um bocado com as palhaçadas de Thomas, e sinceramente eu, na maioria das vezes, também.
A única coisa que me desagradava e aborrecia era o fato de Charlie algumas horas ridicularizar Thomas, não em público e abertamente, mas entre nós. Horas parecia que Thomas não ligava, ria da situação, mas eu o percebia magoado. Não entendi bem o por que de Charlie agir assim, era meio de uma hora pra outra, quando Thomas estava se divertindo Charlie o agredia. Revoltava-me por dentro. Entretanto Charlie se arrependia na maioria das vezes e se desculpava. Os dois pareciam irmãos e eu não sabia se poderia um dia fazer parte dessa relação fraternal, era como se eu fosse um intruso, vendo os dois em sua intimidade de tantos anos, as brincadeiras que eu ainda não compreendia.
Naquela noite em questão, Thomas não tinha ido, passava meio mal da última vez que o vi, mas creio que não foi bem por isso, ele e Charlie tinham brigado mais uma vez, por um motivo tolo, porém, precisavam de distancia um do outro naquele momento, eu percebia isso. Ficaria com Thomas se Charlie não fosse ver a garota, acho que Thomas precisava mais do meu apoio do que Charlie. No entanto eu não queria, de forma alguma, deixar de ver a garota.
E enquanto eu e Charlie apreciávamos aquele momento olhando pela janela, do nada, começou uma tempestade. Chovia de tal forma, que as árvores balançavam a ponto de querer cair. Temendo chegar em casa encharcados, mas sabendo que era inevitável corremos amaldiçoando nosso azar. Voltávamos correndo o mais rápido possível. Mais molhados do que peixes, eu e Charlie percebemos que já não dava mais tempo de escapar-nos. Charlie xingou e parou de correr, eu fiz o mesmo, sentei na estrada enlameada e descansei.
- Sabe, acho que o Thomas sabia da chuva.- disse eu brincando, ironicamente me divertindo com nosso infortúnio.
Charlie me sorriu, mas hesitava como se quisesse me dizer algo, me olhava repetidas vezes rápido e voltava sua atenção para adiante da estrada, então se sentou ao meu lado. Certa hora ele começou a falar baixinho e então me desabafou sobre como era incomodo e frustrante ter que cuidar de Thomas, embora não fosse literalmente obrigação dele. Assustei-me com a repentina reclamação, parecia-me que os encrencados seríamos nós se Alfie descobrisse, nós é que estávamos encrencados.
- É como se ele dependesse de mim entende, Ivã? Como se sem eu ele fosse cair em um mal... Talvez você não entenda, não é? Mas é sim... Eu me sinto sob pressão e às vezes explodo com ele por isso, mostrar pra ele deixar de ser bobo. Pra se cuidar melhor...
Ele baixou os olhos, e eu... O que eu tinha a ver com aquilo? Eu até entendi. Certamente ele tinha que se abrir com alguém. Sinto não ser a pessoa mais adequada pra ele se abrir, eu não sabia o que falar. E por incômodos momentos ficamos calados debaixo daquela chuva que parecia não parar, oscilei em falar algo, talvez falar o que eu não queria, mas o que ele precisava ouvir.
- Talvez, ao nosso lado - eu arrisquei – ele se sinta à vontade, pra ser bobo, e não se preocupe em errar, mas acho que ele pode se virar sozinho quando precisa. Ele é inteligente Charlie, tem boas idéias, é meio piadista, mas ele sabe ser esperto.
- Eu tenho medo, Ivã. – Charlie encarava-me desesperado – Somos como irmãos! E se acontecer algo com ele? E se ele se meter em confusão e eu não estiver por perto?
Era triste, sentia que Charlie se preocupava demais, mas eu o compreendia, em teoria pelo menos, eu o compreendia. E sabia o que devia dizer, embora eu não quisesse me comprometer tão depressa com os dois.
- Eu cuido dele, - disse eu – não... Não querendo assumir seu lugar... Mas... Eu cuido dele se um dia você não estiver por perto.
Ele me olhou e sorriu. Pareceu que tirei um peso de suas costas. E é claro botei nas minhas, percebi ali que tinha seriamente me comprometido, mas estava calmo, calmo por ver que Charlie sorriu em paz e me agradeceu com verdadeira gratidão, não era um teste, eles realmente confiavam em mim, talvez até mais do que eu mesmo confiava.

Capítulo 1

Alta Idade Média; Alguma insula na Europa Ocidental;

Minhas lembranças apagadas e levadas à tona de repente esquecem-se de partes relevantes, mas não da essência da memória. De veras, não devo ter esquecido muita coisa depois dos meus nove anos, que foi quando comecei a minha solitária jornada, mas tenho uma boa memória, que pode ser preenchida pelos devaneios de minha mente, vou começar de onde me lembro. Naquela estrada desconhecida, com os pés molhados e sujos de barro, e os olhos cegos pelo tempo nublado e pelo escuro da madrugada. Aquela noite de... Deveria ser verão, mas agora não tenho certeza. Estava frio, muito frio, mesmo sendo verão, cambaleei por uma estrada ensopada e por diversas vezes cai sentindo a textura da lama e também seu gosto nada agradável. Algumas horas antes eu tinha partido escondido em uma carroça, agora, não sabia onde estava, nem fazia idéia. Caminhando faminto e exausto nem me dei conta de que a estrada tinha acabado quando dei de frente com uma enorme tora de madeira que se estendia até onde a minha vista eneblinada conseguia alcançar, parecia infinita, mas velha, podre, não demorei a achar em uma de suas extremidades um rombo pelo qual eu conseguiria passar, e após atravessá-lo deparei-me com uma cidadela por onde andei sem rumo por entre as casas, não me lembro do caminho. Recordo-me do vulto, uma grande construção, ainda a vejo em meus sonhos, subi em seus degraus tropeçando, escorregando, caindo e parando na porta.
Fui acordado as sacudidelas por um homem de bata preta na manhã seguinte, de rosto gentil, mas preocupado, ele levou o garotinho imundo pra dentro da construção, uma capela simples e rústica, lembro de ele ter falado comigo várias vezes, perguntando meu nome, eu nada falava, só via as infiltrações da parede branca em direção ao chão. A capela tinha cheiro de mofo úmido, os bancos de madeira precária que já estava se desfazendo e o altar, com algumas poucas velas, umas flores murchas e uma grande cruz enferrujada com um homem que parecia estar morto, dependurado nela.
Levado para um cômodo pequeno foi-me servido pão e água, que devorei esfomeado. Notei que o homem me observava, lá estava ele em frente a mim, sentado na cadeira enquanto eu comia no chão gélido de cimento, olhando para meus pés sujos. Ele então se apresentou como padre Fixar. Olhei-o melhor, não parecia velho, talvez tivesse uns 30 anos, olhos castanhos meio caídos, cabelos escuros, boca fina e rosto magro e sereno. Seu cabelo era cortado de forma estranha, como um círculo de fios de meio oco, ele usava uma bata negra e por cima um manto também preto, ambos feitos de lã. Dava-me uma sensação de segurança, mesmo assim eu não confiaria nele tão cedo, não confiaria em ninguém como antes. Encarei-o por um momento e pronunciei um nome que dali em diante adotaria, Ivã.

O padre Fixar fez inúmeras perguntas depois, de onde eu vim, quem eram meus pais, como cheguei até lá. Eu não o respondi, queria esquecer as verdadeiras respostas, mentir pra si mesmo pode ser a pior mentira, mas também foi a melhor solução. O eclesiástico parecia não saber o que fazer a meu respeito, quando viu que eu não respondia, saiu sem dizer nada, pouco depois abriu a porta e pediu que eu o esperasse. Eu não tinha porque desobedecê-lo. Fiquei ali encostado à parede branca, no pequeno cômodo de somente uma porta, olhando o vitral da janela ao alto. A saleta tinha apenas uma mesa, uma cadeira e um espelho.
A curiosidade me levou até meu reflexo, os desgrenhados cabelos ruivos fogo sujos de barro seco, foi à primeira coisa que me chamou atenção, eles estavam deveras grandes, lembro-me vagamente, mas acho que eram à altura dos ombros. Os olhos verdes profundos escondidos por traz do cabelo, o nariz com algumas poucas sardas, a boca fina. Não era o rosto mais atraente que eu já tinha visto, mas era ligeiramente agradável. Então vi o reflexo do reverendo as suas costas.
- Achei um lugar pra você.
Ele me guiou para fora da capela, pela rua ainda meio enlameada. Eu andava olhando pro chão, tinha vergonha e medo dos homens da rua, tinha certeza que olhavam para mim com desprezo, o garotinho sujo, muito embora hoje eu saiba que nem reparavam em mim, não eram menos maltrapilhos que eu. Não haviam mulheres na rua, como eu fui saber mais tarde, não tinham mulheres em lugar algum. A arquitetura era incoerente, como se pertencessem a civilizações muito distintas, em contraste com as casas a igreja era o que mais chamava atenção, mesmo assim a cidadela tinha um ar simpático e hospitaleiro, embora brutas as construções tinham um místico encanto.
Olhando para os lados algumas vezes, vi que a aldeia era cercada por um grande muro de pedra, me lembrei dele na noite anterior, era grandioso, mas de pouca utilidade, o portão de madeira deixado ao revés já apodrecera deixando um belo rombo numa das extremidades que facilmente eu diminuto garoto como eu pode passar. Na minha esquerda estava um magnífico castelo, com imponentes paredes de pedra que se erguiam formando três torres, mas ele, como o muro parecia ter sido deixado, não era um reino rico pelo que notara, provavelmente submisso a outro, que começava a se desenvolver ou em declínio, mas tarde descobri que era a última opção. O eclesiástico conversava comigo pelo percurso disse-me ele que algum tempo atrás aqui eu encontraria alguns guardas com suas lustrosas armaduras e lanças que supervisionavam o andamento do reino, porém eles, como o rei, tinham deixado a aldeia e rumado a outra que também os pertencia e que também perecia.
Os camponeses e pequenos comerciantes se vestiam com lã trançada, como eu, algumas pretas, outras brancas, a maioria amarronzada, os de condição melhor tinham braceletes ou colares de metal.
Chegamos a uma casa, paredes de pedra, um andar, telhado e porta de madeira, uma chaminé erguia-se e dela saia uma suave fumaça negra, no quintal cercado por estacas de madeira, tinham alguns garotos que gritavam em suas brincadeiras, umas duas ovelhas, um gato rajado e algumas poucas galinhas. O padre abriu a portinhola que lhe batia pouco abaixo da cintura.
- Venha, venha. Não precisa ficar receoso.
Fácil pra ele dizer, eu iria ficar ali? Como aqueles meninos de sorriso maldoso? Com aquele gato? Ah sim, eu não fui com aquele gato, nunca soube bem o porquê. O padre me estendeu a mão, ah, como eu queria dar o fora dali, mas aonde eu poderia ir? É. Pra lugar nenhum. Conformei-me com a minha situação, afinal não era tão ruim assim. Acompanhei o padre até a porta.
De dentro da residência vinha o som de uma voz cantando em murmúrios e o cheiro de lenha queimando, era um tanto hipnotizante. O eclesiástico abriu um ligeiro sorriso e chamou por um homem chamado Alfie. Os cantarolantes murmúrios cessam e eis que ouvimos a voz grave vinda da casa.
- Ora vamos, Richard, entre logo. Não me fará ir ai não é? Há, venha, traga o garoto de que me falou.
- Mais um, não é Alfie? Que Deus o abençoe. – e então fui levado ao Alfie, entrando na sala invadida pelo calor e brilho da pequena fornalha, senti-me como um porco que ia ser assado, mas o cheiro da casa era agradável e colhedor, notei a tapeçaria na parede à direita em cores vivas com formas que lembravam galhos e flores, uma cruz de madeira estava sobre a parede oposta e no meio da sala tinha uma mesinha de centro. O outro lado da sala estava Alfie, ao lado da fornalha, o rosto muito vermelho e suado com um sorriso amarelo estampado veio em nossa direção, em pesadas passadas de suas curtas pernas e corpo maciço.
Alfie abraçou o clérigo, que se curvou para fazê-lo. Embora demonstrasse ser cristão, Alfie parecia ser um descendente do povo que lá existia antes da evangelização, tinha uma densa barba negra com alguns fios já grisalhos, os olhos miúdos como besouros, meio careca e gorducho. Tinha um grande cinturão de metal na cintura. Havia vestígios da outra cultura por toda cidade, desde as construções até o escudo e o machado duplo que enfeitavam a parede ao lado da fornalha. O homem corpulento me analisou e depois de um momento dirigiu-me um sorriso amigável.
- Vai encontrar outros garotos lá fora, amiguinho, por que não vai lá brincar com eles?
Não queria agüentar aquele calor por muito mais tempo, mas preferia ficar ao lado do padre. Olhei pro chão e segurei a barra da manga do reverendo.
- Este é meio tímido Alfie, vai precisar de tempo pra se adequar.

Tinha cortado o cabelo no segundo dia lá, mas ainda sentia sua falta. Era estranho ter um cabelo curto, era bom. Depois de dois meses naquele lugar eu ainda não tinha feito nenhum amigo, só os observava, às vezes um dos 17 meninos vinha falar comigo, mas logo desistia. A maior parte do tempo eu cuidava das ovelhas, eram cinco ao todo, as escovava, alimentava, logo Alfie simpatizou comigo e eu com ele, me ensinou a tratar melhor dos animais. Mas eu continuava sem muitas palavras. Na semana seguinte a mim chegou outro menino, ouvi Alfie comentando com o padre Fixar que aquele deveria ser o último, pois a casa estava ficando muito lotada.
Os garotos de lá estavam sempre alegres, eram travessos e criativos, um ou outro fugia a regra como eu, mas era só na primeira semana. Criado de uma forma, digamos... diferente, tentei me adequar aos novos costumes, embora por vezes alguns dos meninos reparavam inconvenientes atitudes minhas e quando eu percebia, fazia esforço para mudar. Era difícil agir como um menino normal, pelo menos no começo.
Thomas e Charlie eram dois dos meninos de lá, sempre andavam juntos e arrumavam alguma encrenca. Charlie era ligeiramente maior e mais velho que Thomas, devia ter uns nove anos, como eu. Era loiro de cabelos anormalmente lisos e olhos castanhos muito vivos, tinha um sorriso maroto e malicioso de menino esperto que banca inocente, já Thomas tinha o cabelo castanho muito cheio e ondulado com olhos azul-claros, era meio bobo, obedecia Charlie em tudo que este mandava e parecia se divertir com isso, mas não sabia mentir como Charlie, por isso se encrencava mais.
Dormíamos todos no chão, na sala, que era o único cômodo da casa, Alfie dormia num canto perto da fornalha. Sempre custei a pegar no sono e em certa noite, aos 11 anos, flagrei Thomas e Charlie fugindo na madrugada, fiquei curioso e depois de agonizantes minutos de espera resolvi segui-los.

Prefacio


Ele estava sentado em sua cama, encarando a si mesmo, seus olhos frios refletidos no espelho, grandes olhos verde-escuro como o mar em certos dias, estavam cansados e tristes. O pequeno caco de espelho na palma de sua mão era incompleto, assim como ele, embora em outros tempos pertencesse a um refinado espelho rústico de uma delicada penteadeira.
- Você já pertenceu a ela não é, meu caro. – ele se ouviu dizendo ao espelho em suas mãos – Assim como você. – Afirmou rouco e friamente agora a seu reflexo.
Os olhos no espelho se arregalaram pasmos e o homem foi descendo o reflexo, passando devagar por um fino nariz, mas não delicado, e parando em sua boca com um sorriso irônico e maldoso.
- Vá atrás dela seu cão covarde! – Ele viu os lábios ordenando. Voltando o reflexo novamente os olhos, que quando se encaram ameaçadores se tornam mais uma vez tristes e cansados.
- Você sabe que não sou covarde, sou leal a meus amigos.
- Deveria ser leal a si mesmo, não cansa de se martirizar pelos que não te querem? Onde está seu amor próprio imbecil? Ela o levou também?
- Sim, ela o levou.
- Errado! Idiota! Ela não o levou, você o esqueceu!
- Sim, e para recuperá-lo eu preciso esquecê-la.
- Sabe que não consegue, porco inútil.
- Não! Está enganado! Se eu quiser...
- E você quer? Não, a ela não. Você nunca irá esquecê-la, você nem mesmo quer...
- Sabe que eu já tentei!
- Querer é poder meu caro, você tenta sem querer. Nunca vai esquecê-la assim.
Os lábios no espelho se calam, continuam, no entanto, com o sorriso cínico. Os olhos quando foram refletidos fizeram menção de argumentar, mas desistiram.
- Estou ficando louco? – perguntaram melancolicamente os tristes olhos verdes.
- Não, que ta doido é o espelho! – os lábios expressaram um sorriso satisfeito.
- Ótimo, um espelho sarcástico!
- Não se aborreça com esse mísero espelho, todos que conheceu até hoje eram loucos, não?
O espelho se despedaça na parede, o arremessou com toda sua força motivada pela raiva. O homem encara os retos do pequeno caco no chão de madeira empoeirado, olhava-os fixamente, como se ainda esperasse uma resposta dos lábios cínicos, mas ele nada ouve. Juntando seus pés para junto do corpo sobre a cama agora ele observa seus dedos, levando as mãos à cabeça massageia as temporas, começando a relembrar a própria história.